Se chacoalhar, São Paulo explode?

1. A poesia que quero na vida existe em São Paulo? A poesia dos lixos abarrotados, transbordantes, do trabalhador no veneno, da gente pilhada, empilhada em apartamentos com terraço ou barracos sem reboco. Poesia das desigualdades abissais, poesia de ruído e fumaça, das panelas artísticas, do progresso em queda. Epicentro de tudo: pandemônio. São Paulo tem muita cultura — tem muita cultura porque o mito do progresso, a dependência química em produtividade, aqui, não poupa nem a cultura. Meu espanto é olhar ao redor e não me conformar: como este excesso de tudo ainda não explodiu? Minha ansiedade é sentir que, a qualquer momento, explodirá — e se desdobrará numa queda vertiginosa ou num levante revolucionário. Epicentro de tudo: inferno pacífico.
2. O ônibus estaciona na plataforma, ponto final, mas o rapaz, exausto, ainda dorme, dentes escancarados, céu da boca à vista. Afundado, fez do assento do 5119-10 sua cama king size.
pobre trabalhador
vai acordar no susto
e com torcicolo
3. Quem deixou essa penca de roupas estendida sobre o assento do ponto de ônibus? Duas da manhã, quinze graus, a despencar para treze: o sereno decanta na superfície dos trapos. Como um brechó do abandono, bazar da tristeza, esse ponto de ônibus sem gente, a servir como varal ou vitrine, é a paisagem de uma interessante fotografia, retrato caprichado da urbanidade do sul do mundo e da modernidade que retumba, agressiva, estridente e aflita. De quem são essas roupas, quem as deixou ali e, mais importante: quem as levará e onde estarão quando a luz do dia brotar
mistério, abandono —
trapos sem dono, frios, cobrem
o ponto de ônibus
4. Boina, casaco de lã, relógio analógico no pulso, bigode na régua: o senhor preto, aprumado e perfumado decide se sentar no banco preferencial do vagão da linha azul do metrô — não sem antes, velho cavalheiro, oferecer a vaga para três mulheres de meia-idade, ensacoladas, mochilas pesadas nos ombros. O vagão dispara sentido zona norte e é de lá que este senhor deve ser: dos antigos subúrbios do Tucuruvi, da velha Santana dos “mulatos”, dos fundões da Parada Inglesa. São Paulo e Rio de Janeiro ostentam sua zona norte como região-relíquia: não se conta a história moderna destas duas capitais, sobretudo na cultura, sem os bairros da zona norte como epicentro, ponto de partida. Predada pelo progresso, como toda São Paulo, porém estranhamente resistente, ainda reluzem, na zona norte de cá, quintais de caquinhos de azulejo, mercearias de esquina do Seu não sei o quê, aroma de almoço das janelas das casinhas, céu de um outro azul, constelado de pipas. Prestes a se levantar, o senhor tira o celular do bolso; não é um smartphone: aparelho de flip, modelo 2010? Levanta-se e desembarca na antepenúltima estação, Jardim São Paulo Ayrton Senna, passos cadenciados no mocassim marrom irretocável.
São Paulo, céu, sabores —
nos fundões da zona norte
pipa e Tubaína
5. Por mais que queira, insista, a megalópole não macula nem a luz nem a forma da queda do dia. Fim de julho, quase 18h, hemisfério sul: o ipê-roxo desponta em direção ao azul opaco, infinito.
rapaz sobre a moto
entrega os olhos, fixos
no lilás das flores
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada Retalhos. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.

Abraços e até a farfalhada #81,
Felipe Moreno
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