Punhado de frases adstringentes escritas no meio-fio, no ponto de ônibus, no balcão da lanchonete

§ É fraco, mas vai em frente, enfrenta, mesmo ciente da sua fraqueza. Coragem: o fraco que vai. O contrário é petulância. O fraco que vai é forte.
§ Me preparo, diária e obcecadamente, para o momento da minha morte, das tantas mortes da vida, porque, no fundo, nunca estou preparado. Não as suporto: vivo para aprender a suportá-las.
§ Quem, no fundo, nunca sentiu orgulho de si frente à miséria do outro? Orgulho não por estar safo da miséria alheia, mas pela nossa humildade em reconhecer a miséria alheia. Um orgulho por ter pena.
§ O amor próprio mais bem acabado tende à conclusão de que a autossuficiência absoluta é dádiva reservada somente aos santos que não somos. Quem se ama precisa do outro; na lógica oposta, reina não o amor próprio, mas o vício na imagem isolada de si mesmo, problemática adoração ao seu narciso em versão neoliberal.
§ Plena confiança no humano; grave desconfiança na humanidade. No entanto, quanto tudo explode e se atomiza em hipertrofia individual, só me resta, de novo, a confiança nas massas, na força das massas, na diluição dos narcisos nas massas.
§ Não ter redes sociais: um luxo impagável, uma anonimidade incomparável, uma excentricidade abominável, uma condição desejada, porém inadmissível.
§ Ainda criança, aos 10, deus era um problema insolúvel: ele existia, eu gostasse ou não. Aos 15, deus era uma ilusão abortada: sua inexistência concedia minha liberdade. Aos 30, deus é um problema de lógica: ele volta a existir no coração da sua inexistência. Aos 40, talvez, será um problema da gramática: só seu nome será vão.
§ Que deus derrame sua infinita paciência nas pessoas que só puderam conceber deus de forma tão grotesca.
§ Quando devastados pela paixão erótica, compreendemos a sensatez do celibato.
§ Súbito, minhas neuroses cessam e, enquanto não retornam, restam o esclarecimento sobre as próprias neuroses e uma sensação de inteireza que, tão rara para o sujeito de hoje, se assemelha a uma tenra condição de homem bárbaro, ou típica do reino animal.
§ Escrever um livro com a seguinte dedicatória: “À minha neurose, que tanto me maltrata e me anima”.
§ Uma amiga me conta que, desde que tem memória, nunca viu sua avó, filha de japoneses, escapando da rotina. Diz que a velhinha acorda todos os dias, nos mesmos horários, e cumpre o mesmíssimo ritual: lava o rosto, passa café, esquenta as torradas. Humano: primata de repetição e costume. Como se não houvesse nada que não fosse hábito perene, consistente. E de que a primazia de se estar vivo é repetir, quase sem desvio, alguns poucos gestos simples.
§ Primeiro ler os intelectuais, depois os poetas, depois os místicos e, por último, os hacaístas.
farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada Retalhos. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.

Abraços e até a farfalhada #84,
Felipe Moreno
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