Perambulações de verão (primeiros haibuns do ano)

§ Estalo dos meus passos na calçada esburacada, silêncio da noite sem contornos. Quando se anda, anda, anda, vida afora, madrugada adentro, todo exame de consciência é um clarão sem meio-termo. Quando se caminha, caminha, caminha — e até a resina da dúvida é a pungente certeza de algo. Quando se vai, vai, um pouco mais — e o óbvio se faz cristalina sabedoria. Morrerei. Estou aqui. Sou quem sou.
trinta e um anos —
nem filhos, nem bens, ando
sem rumo, sem sono
§ Na esquina, um garoto em pranto: olha a tela do celular e chora alto, soluça. Notícia de morte? De gente, de animal de estimação? Término de relacionamento? Penso em acudi-lo, mas não o faço. Adiantaria? Ele segue rumo. Do outro lado da rua, no portão baixo da casa verde, um casal se ama: delicadeza de mãos sobre mãos, selinhos, selinhos… Ele se despede dela, vira as costas, caminha, sorri, olhos acessos de paixão. Espectador de dois extremos da condição de mamíferos desamparados que somos — em poucos metros quadrados, a dilaceração do sofrimento e o deleite do amor —, pito cigarro de palha e, nos fones, canta Caetano Veloso. Acima do muro alto da casa branca, pende o pé de dama-da-noite, cada dia maior, flores abertas sob o manto escuro do céu: seu perfume empesteia o quarteirão.
lua de verão —
a mesma dama-da-noite
entre o pranto e o beijo
§ Safra boa de haicais, não vou desperdiçá-la. Ao menos um por dia, às vezes sete. Do muito que vejo já vem em três versos: captura, instante, pílula, sentido da vida ressignificado pelo brilho das coisas ínfimas. Verão, energia no talo, luz e abundância, luz e desbunde, dias de descanso — estação de excesso, sem romper com seu equilíbrio; estação desentranhada, vertida para fora; somos nós, o verão, enquanto que ao norte, acima da linha que divide o globo, povos esbranquiçados, frígidos, recolhidos e tristes sob baixas temperaturas. Noites de mosquitos em torno das lâmpadas e, de dia, lá fora, roupas secam em trinta minutos, pois há um sol para cada coisa estática ou caminhante abaixo deste céu implacável. Impossível esquecer minhas dores e meus dramas, as dores e os dramas do mundo. Sob o sol e frente ao mar, porém, é necessário suspendê-los, reduzi-los: paciente maneira de enfrentá-los. Hoje, sábado: sem motores, sem ar-condicionado. Onde quer que eu vá, vou a pé ou de bicicleta. Verão: é preciso suar, senti-lo. Vou à praia.
sol do meio-dia —
no canteiro da ciclovia
dentes-de-leão
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada Retalhos. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.

Abraços e até a farfalhada #91,
Felipe Moreno
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