Neurose pagã

1.
A candura da santidade provoca um grave efeito colateral à história: a santa ou o santo, no paroxismo de suas inocências, se despe da importante desconfiança da humanidade. São otimistas inabaláveis: creem que o que se tornaram, qualquer um pode se tornar, basta seguir o mesmo rumo, praticar as mesmas coisas. Jesus não previu, nem por um segundo, que as instituições que logo se levantariam em seu nome, a ferro e fogo, perverteriam seu modo de vida e seus ensinamentos? Uma santa ou um santo aponta para a esquerda e caminha para o sul; dali a algumas gerações, a massa de fanáticos — e pior: não praticantes — começa a se dirigir à direita e ao norte.
2.
Não perdoo os sábios da Antiguidade por suas ingenuidades: esta mesmo que os fizeram sábios, ao passo que desavisados das sórdidas complexidades da condição humana. Pelo impulso irrefreável de querer ensinar, de se proporem pedagogos da verdade universal, não puderam trafegar pelo caminho da indecisão: o ensinamento de um sábio é teso, justa medida até o ápice da libertação de algum erro de origem. Os poetas e estetas, que apenas correm o dedo na superfície das águas onde o sábio mergulhou — e, muitos deles, se afogou —, que, no ambiente escuro, tateiam as paredes que o sábio enxerga e toca a claridade, o poeta e o esteta, ao menos, podem estar ilesos da presunção dessa violenta ingenuidade: escolhem por comentar e cantar o mistério ao invés de decifrá-lo.
3.
Um asceta repulsivo, indiano de três mil anos atrás, advertia a toda a gente: “Nunca adore o mundo e as coisas do mundo. Recuse-o”. Mas um baiano de ontem, torrado de sol e marinado de águas naturais, responderia: “Dá licença para gostar um pouquinho só”.
4.
Minhas amizades não podem acreditar em deus não em razão da funda especulação teológica, mas porque é fora de moda. Deus não é tendência de vestimenta e comportamento ao meu gueto, não há qualquer previsão de sê-lo — se fosse, porém, minhas amizades, sem deboche, estampariam seu nome e sua palavra em camisetas e adesivos colados ao notebook.
5.
Era tão mais fácil, tão mais cômodo ser ateu: os problemas da existência reduzidos a um único e anárquico plano. Sem metafísica, me despossuí das forças invisíveis; a partir do momento em que derivei todo fenômeno ao caos e ao absurdo — e, ali, forcei um repouso dos sentidos, contra a funda e íntima reação exasperante de alguém substanciado pelo catolicismo —, desfiz as angústias sobre o caos e o absurdo. Irmanado com o caos e o absurdo, toda gênese teológica e teleologia tornaram-se minhas inimigas: viver era o desfrute do sem sentido; fugia de tudo aquilo que pudesse perturbar a paz do meu sentimento de mundo sem sentido e sem funções além mundo.
6.
Repito: devo tudo às minhas obsessões: da capacidade de estar envolvido, anos a fio, com árduos exercícios acrobáticos e meditativos (que me fazem parecer um asceta urbano), às manias dos pequenos e variados rituais supersticiosos, irracionais e esdrúxulos (que me tornam semelhante a um padre complexado).
7.
Tantas metafísicas do passado, tão passadas, requentadas, para quase nada: desembocamos no achatamento sufocante, na censura da fuga aos aléns. Sobram transcendências ainda piores: a história e sua versão retilínea, o progresso e sua fome insaciável de devorar matéria. O progresso: cosmologia que mastiga, tritura a diversidade, e vomita concreto. O santo de ontem é o coach de hoje. Recuso a neurose restritiva do asceta; rejeito, com ainda mais força, o charlatanismo vocal do palestrante motivacional. O que se mantém no coração? O eixo errático de um certo zen que me faz sentar, expirar, sentir as delusões, caminhar, encantar com o minúsculo à volta, borrar contornos entre um suposto eu e um fenomenal mundo. Minha alegria? Metade brasileira, metade japonesa.
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Abraços e até a farfalhada #117,
Felipe Moreno
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