Haicaísmo: modo de vida

1.
Haicai: expressão poética. Haicaísmo: modo de vida. Um modo de vida que prevê, antes de tudo, a redução da saturação audiovisual que o tecnocapitalismo impõe, durante a maior parte das horas, aos nossos modos de vida comuns: criar frestas de tempo para desmidiatizar e experimentar, pela fruição poética, o contato direto de corpo com matéria bruta, corpo com devir; imunizar-se, por alguns instantes, dia a dia, da cacofonia e dos brilhos sintéticos das máquinas.
Estamos vertiginosamente nos dessensibilizando às vivências de baixa saturação sensitiva. O caminho poético do haicai — uma filosofia prática, antes que um mero fazer literário — encaminha-se para becos e vielas de imunização dos corpos expostos à intrusão da saturação audiovisual e do consequente superaquecimento das sensações. O haicaísmo se alimenta, além do mais, de condições de ambiente propícias à sua prática, se fortalece por uma noção ecológica que encontra problemas no nossos espaços humanocentrados. O alarido de uma floresta, em plena abundância de fauna e flora, é infinitamente menos perturbador que a emissão sonora de uma cidade de urbanidade mediana; mesmo a floresta mais densa e hiperpovoada detém um silêncio e uma musicalidade praticamente já extintas dos nossos currais antropocêntricos — cidades enlatadas e acimentadas.
Que pese a contradição, haicaísmo não é monástico, não se retira ao deserto ou à floresta, não se fecha à fantasia bucólica; escolhe ficar aonde está; e, se está na cidade, põe lente de aumento na vida dos meios-fios, produz rachas no cimento, alarga as porosidades do piche, vinca as superfícies achatadas das matérias hipermanipuladas, destaca e prolifera os vestígios de rugosidade, fricção e aspereza dos objetos lisos, goteja ou vislumbra o resto do selvagem em todo ambiente adensado de modificações antropogênicas. Mistura limo com cimento, erva daninha com asfalto, bem-te-vi com fio de energia etc. etc.
2.
O haicaísmo se atenta aos limites do humano em relação ao ambiente: reduz o peso do sujeito para não violar as emanações do ambiente. O haijin contempla a lua e tece um haicai; um bilionário, por exemplo — um anti-haicaísta do primeiro ao último neurônio —, vê a lua e quer colonizá-la. O fragmento haicaístico manifesta-se, assim, como primazia do detalhe: haicaísmo como mínimo rastro deixado no mundo. Haicaísmo como antiantropocentrismo.
3.
Haicai: poética do detalhismo, poética do perto e do pouco; do vislumbre agudo, da minúcia fulgurante. Masaoka Shiki:
sempre que rola
fica maior
a gota de orvalho na folha de lótus
*
num canto do velho muro
sem se mexer
uma aranha grávida
(Tradução Joaquim M. Palma)
4.
William Carlos Williams, norte-americano, pediatra até o fim da vida, nascido, criado e morto na mesma pequena cidade de interior, sem ambição de Paris ou mais erudições. Imagista, objetivista, nunca escreveu um haicai. Toda sua poesia, no entanto, é haimi: sabor de haicai. Eis:
Poema
Ao trepar sobre
o tampo do
armário de conservas
o gato pôs
cuidadosamente
primeiro a pata
direita da frente
depois de trás
dentro
do vaso
de flores
vazio
(Tradução José Paulo Paes)
5.
Até na mais dura paisagem, o vislumbre de uma beleza macia. Até no mais intransponível cinza, a colheita do iridescente — iridescente cinza.
6.
sombra, sol, susto —
súbito, o som das asas
de seis canarinhos
7.
Haicai não é a exclusiva forma poética que escolhi praticar. A exclusiva forma poética que escolhi praticar é fruto do haicaísmo: um modo de vida. Haicai é só minha oração.
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Felipe Moreno
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