Haibuns e fragmentos de outono

§ Um sebo chamado Eureka. Letreiro bonito, clássico, conservado. Lá dentro, abarrotado, confuso, o dono de mau humor. Eu estava de passagem na rua, vivendo o tempo da rua: desfocado, dinâmico, disperso, embora meu andar fosse leve. Entro no sebo e fisgo alguns títulos, apanho um ou outro livro, abro um de João Cabral de Melo Neto. Leio três poemas. O tempo fecha. Não lá fora, nem no sebo — o tempo do sebo já estava fechado antes de eu entrar. O tempo fecha-se dentro de mim. A sensação vital do sebo, que influi nos sentidos, a partir dos primeiros minutos lá dentro: de tempo fechado, parado. Um tempo carcomido e desbotado.
entro no sebo
mergulho em velhas páginas —
o tempo é outro
§ Florianópolis é uma cidade segura. Em pleno centro, nove da manhã, um homem dorme profundo na calçada larga, envolto a papelão e cobertor. Na frente do seu rosto, o par de tênis — Nike Shox doze molas segunda linha, novo —, perfeitamente alinhado, as meias dentro. Sobre seu antebraço à mostra, um smartphone em bom estado. Retorno às nove e quarenta e tudo está igual: Nike Shox alinhado, celular no antebraço, papelão, cobertor, sono profundo.
§ Florianópolis, às vezes, é uma cidade estranha. Na farmácia enorme, tomada por luzes de led, uma torre de leite condensado de caixinha em promoção: Piracanjuba, R$ 4,99. Próximo aos caixas, uma gôndola com roteadores de internet. Indagada sobre a venda de objetos inusuais, a farmacêutica faz piada: “Aqui é uma farmácia que tem de tudo, até remédio”.
§ Cada dia da minha vida em que não pude sair para caminhar foi um dia em que não pude ser tão contente quanto posso ser.
na queda do dia
aroma de crepúsculo
com padaria
§ Vejo a euforia no rosto desse jovem branco e loiro, classe média alta, boné e tênis da Vans etc., que corre o mundo, cruza países, desbrava. Sinto o contentamento na expressão daquela senhora, vestido bordado, sandálias de tiras, cadeira de balanço, que nunca viajou a outro estado, sente estranheza até quando vai à cidade vizinha.
§ Uma arte marcial na minha vida. Nada mais significativo, pungente, agregador. E é como seu eu chegasse atrasado à prática. Como se eu devesse ter iniciado aos quatro anos. Cedo ou tarde, a conclusão seria a mesma: usar a arte marcial para melhor acessar a poesia.
§ A vida é o que está por trás da vida. E o que está por trás também está manifesto na superfície.
§ Vivo mais um outono, o trigésimo. O azul volta a ser o azul de outono, assim como o verde. O verde e o azul combinados (o céu e as plantas), retornam ao tom do outono. Os mosquitos vão embora; a água, agora, corre mais gelada pelas torneiras. Depois de meses, tiro um par de meias da gaveta. Calço as meias e, como ocorre em todo início de outono, parece que visto meias pela primeira vez. A Terra se inclina e, a cada dia, o dia morre mais cedo; a noite avança sobre o hemisfério sul. Dona Bahia, a vizinha, vem com as mãos carregadas de caquis. Me entrega uma dúzia, pergunta se eu comi a outra dúzia que havia me dado na semana passada. O caquizeiro do quintal de Dona Bahia dá caquis que nem o mais doce caqui, do empório mais caro da cidade, pode superar. O outono são os caquis do quintal de dona Bahia. Meu trigésimo outono. No hemisfério sul. E não virá o próximo, não há próximo: só há os que vivi e o que vivo agora.
dúzia de caquis
e o verde e azul do sul
sem saturação
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada Retalhos. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.
Abraços e até a farfalhada #48
Felipe Moreno
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