Haibuns da insolação (fim do verão)

§ Calor inumano. Oito da manhã e já me sinto devorado. No quintal de casa, nem as espadas-de-são-jorge se mantêm de pé. Nas ruas, povo de shorts, minissaias, regadas, blusinhas, chinelos. O sol devora a todos, menos o homem de rua, incomunicável já faz tempo, agressivo, alcoólatra, dentes rotos, com um blusão de capuz e uma jaqueta de couro, imundos, sobre a pele escura.
fogo no asfalto —
o mendigo, dois casacos
chuta uma latinha
§ Na calçada larga, sacolas de supermercado rodopiam com o sopro quente das 17h, trinta e dois graus no centro da cidade. No asfalto, pneu colado no piche fervente, um carro buzina. Nas alturas, no fio de energia, um bem-te-vi se assusta e parte, ligeiro e livre, vira-lata de asas, no trânsito da grossa camada de entulhos, latarias e fumaça (quase nenhuma árvore) que damos o nome de cidade — e que se encrespa, infla, condensa em seus centros, ralo para onde convergem todas as parafernálias humanas e onde a vida não humana, escassa, por um alto custo, se adapta.
sacolas plásticas
calçada, calor extremo —
ah, os bem-te-vis
§ O dono da papelaria do bairro insiste em abrir aos sábados. Não o faz pela necessidade de venda, mas pela necessidade de vencer o tédio de quem, por conta da idade avançada e outros fatores, foi poupado do vício em celular. Fuma sob o sol duro, mão e pescoço trêmulos — sofre de parkinson. Nos últimos meses, tem piorado. Com a piora, trabalha mais e mais: manhã e tarde, recostado na porta de vidro, fuma, treme e olha pessoas e carros passarem. Pele acinzentada, óculos no rosto, óculos pendurado no cordão, junto ao peito. Lá dentro, na prateleira atrás do balcão, um escapulário de Nossa Senhora. Terça-feira, hora do almoço, entro e compro lápis e apontador. Ele apaga o cigarro, pigarreia, entra e me atende. Voz grave e rouca de tabagista de décadas, pergunta se débito ou crédito, se quero minha via, diz que o calor está demais e me deseja boa tarde. Sai logo após de mim, acende mais um, recosta o ombro na porta de vidro, treme, olha.
canteiro sem flores —
embalagens desbotadas
bitucas de cigarro
§ O verão se aproxima do seu fim. Dou graças. Foi um período bom, embora inquieto. Difícil dormir profundo quando a fervura dos dias se instala nas noites. Quando o calor se incrusta, sem sinal de partida, mesmo quando o sol desaparece. Inquieto, também, porque uma rajada de vento quente sempre me faz lembrar que trata-se de um calor anormal — um calor doentio, fóssil, capital, estufa do nosso perverso sistema-mundo. Crítico caminhar, à tarde, com trinta e cinco graus: dois quarterões e estou ensopado, ofegante, cozido. Em compensação, fui muito à praia: caminhadas à beira d’água, visão das gaivotas, cães felizes em disparada. Mas o verão, que a tudo venceu enquanto prevaleceu, deve chegar ao fim — logo, assim espero. Março: o crepúsculo já se manifesta em tons pastéis, a lua chega mais cedo. Posso sentir — quero sentir — um sopro ameno, um sopro mais frio, e poder vestir calças para perambular por aí.
nuvem, por favor
cubra o sol escandaloso
enquanto caminho
§ Meia-noite, vinte e oito graus: o bueiro em frente à velha mercearia — que sobrevive, não sei como, à varredura da especulação imobiliária, que, em cinco anos, transfigurou o bairro num bulevar cafona de condomínios de arquitetura sóbria e sisuda, pequenos estabelecimentos gourmet, mini malls —, o bueiro em frente à velha mercearia cospe baratas famintas, agitadas, em seu pleno horário de atividade. Amanhã, às seis, seu Arnaldo, rabugento, levantará o portão de correr, cor de chumbo, do modesto armazém, de clientela fixa. Passará a tarde com a barriga avantajada derramada sobre o balcão, bem próxima à máquina registradora, enquanto atende, sem simpatia, ou assiste, pelo celular, vídeos curtos de escandalosas conspirações políticas. Lá fora, luz do dia, as baratas descansam no subterrâneo: despertarão com o estrondo da descida do portão de ferro, fechamento da mercearia, às 22h.
noite abafada —
cheiros de bueiro, barata
armazém
§ Adeus, verão. A atmosfera devolve o odor das coisas. Perfume de mulher na saída do restaurante. Vento sul das quatro da tarde: penetra as roupas estendidas no quintal, invade a janela do quarto, me assalta. Ventila o passado no meu eu enquanto agora, plena presença nostálgica: cheiro de amaciante que me transporta àqueles lençóis do ano retrasado, ou aos lençóis da minha infância, ou de qualquer infância. Profusão de cheiros na mistura com as cores: doce, cítrico, laranja, roxo, azul claro.
seis da tarde
caramelo com arrebol —
mais um outono
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada O clarão das frestas. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.

Abraços e até a farfalhada #95,
Felipe Moreno
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