Fulano, Beltrana, Ciclano

Beltrana, 71 anos, fumante desde os quinze, desenvolveu a excepcional, embora não exclusiva, capacidade de tragar a fumaça e falar por meio minuto antes de assoprá-la e de, cigarro entre os dedos, equilibrar até três centímetros de brasa sem deixar cair partícula.
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Motorista de aplicativo de domingo a domingo, Ciclano acumula dermatite sobre as peles do pescoço, cotovelos, antebraços e mãos: massa de minúsculas bolhas vermelhas e cintilantes. Não tem dúvida da causa: “Estresse”. Mas é resignado: “Se eu tivesse patrão, seria pior”. Hoje, almoçou coxinha da conveniência do posto Ipiranga; ontem, pão de queijo. Dez a doze horas por dia confinado no seu Chevrolet Onix preto (faltam dezoito parcelas para quitá-lo); respira ar-condicionado e ouve música sertaneja de alguma rádio FM. Diz que a dermatite já não coça.
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Fulano, enfim, decide tirar a própria vida. Para se certificar que, desta vez, não vai falhar na missão, antes de lançar sua moto, em alta velocidade, contra o caminhão que vem na contramão, levanta o capacete, deixa o rosto nu.
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Em aula remota de filosofia, Ciclano, o professor, a vinte minutos do fim, pede um minuto de pausa e justifica: “Recebi mensagem, deve ser do hospital. Preciso saber se meu pai morreu”. Silêncio na sala virtual. Beltrano, o principal interlocutor do encontro, abre o microfone: “Poxa, que coisa! Sinto muito, Ciclano. Quer dizer, espero que tudo corra bem. Antes, consegue responder a mais uma pergunta do chat?”.
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Beltrano já não escreve mais livros. Depois de doze obras publicadas, mais de quarenta mil cópias vendidas, abriu mão do ofício. Ele não se questiona quem os leu; questiona quem se lembra do que leu aquilo que, um dia, ele escreveu. Tenta me convencer, me converter: “Os livros já não funcionam. Novo hoje, morto e esquecido amanhã. Servem como decoração de estante e só”. No entanto, ele mesmo nunca cessa de ler.
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Domingo, tarde de verão, gramado do acostamento da avenida central, Fulano e Beltrana, casal em situação de rua, se abraçam e se beijam como qualquer outro casal, seja o de adolescentes no encontro clandestino depois da aula, ou o de classe média alta, sob guarda-sol e sobre esteira de palha, neste mesmo domingo e horário, na praia mais gentrificada da cidade. Ele sem camiseta, ela, apenas de top. Acordaram tarde, dormiram tarde: noite viva abaixo do manto escuro polvilhado de estrelas que as luzes da cidade ainda não apagaram. A cem metros, seus dois vira-latas brincam de pega-pega.
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Fulano descansa. Descansa não sei de qual cansaço.
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada O clarão das frestas. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.

Abraços e até a farfalhada #113,
Felipe Moreno
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