Encantamentos à meia-luz

1. É urgente reconvocar as vivências místicas e encantadas, as espiritualidades telúricas de distintas tradições, linhagens, épocas. Nossa mundanidade sem encanto, ou ateísmo adolescente, é a barreira que impede a entrada das experiências limítrofes que insistem em cindir e detonar os monumentos da tão bitolada modernidade ocidental. O que vaza do nosso cientificismo secular, em balbucio ou silêncio, em cântico ou transe, em acrobacia ou êxtase, é o que reorienta os caminhos tortos que a civilização percorreu, o que viceja o corpo moribundo que a civilização escolheu ter. Há uma fresta: reavivar, desde as rachaduras, os tantos encantos que a supremacia da luz branca embotou, mas jamais exterminou.
2. Quando penso na vida dos santos antigos, cristãos ou hindus, na vida dos xamãs amazônicos ou dos desertos, antes do extermínio branco; quando penso nessa gente de radical vida espiritual e a comparo com a desencantada e hedonista condição do sujeito contemporâneo, sinto que algo de precioso — talismã humano da ordem do árduo e do sutil — se perdeu para sempre. Mas se ainda há chances, o caminho é de um reencantamento a conta-gotas, pelas frestas e rachaduras — e vertidas, agora, à desneurotização repulsiva sobre a terra e a matéria: reespiritualizações de imanências e trincheiras.
3. O brutal desencantamento do mundo é provocado pela violência excessiva das explicitações: a guerra do desvelamento, da incidência de luz branca em toda natureza de enigma, mistério, ocultamento, em toda ordem das vivências inexplicáveis. Sinônimo de modernidade ocidental é o projeto que a tudo precisa abrir, escancarar, fichar e dar prova. A modernidade é a grave ameaça aos tantos encantamentos que só podem viver sob o escuro ou à meia-luz, mas que desaparecem se atingidos pela claridade devastadora do supremacismo europeu. A modernidade é, desde sua origem, pornográfica. A invasão e o extermínio brancos, mundo afora, podem ser entendidos como a dilapidação do povoamento dos muitos mistérios sob o louvor telúrico, em nome da luminescência de um progresso total e transcendente, imbuído de cólera e sede de extermínio. A atual oligarquia dos tecnofílicos do norte e a digitalização da vida definem-se como reflexos avançados dos holofotes medonhos dessa renitente civilização supremacista. Reencantar o mundo exige, em primeira mão, o desencanto pela luz mítica de um progresso avassalador. É preciso a soltura da neurose explicativa do ocidente secular; readquirir e reexercitar o repouso dos sentidos naquilo que nem se sabe e tampouco não se sabe: vive-se o inexplicável e o inexprimível a princípio. Intuições poéticas, exercícios de esquiva da luz branca hedionda que extermina nuances, reentrâncias, matizes. Quer dizer: atravessar a luz branca, sem por ela ser devastado, para reavivar os encantos ocultos ainda não extintos.
4. As ciências humanas (filosofia e sociologia, sobretudo) vivem à base da overdose de diagnósticos e prognósticos do mundo e de uma brutal escassez de proposições de programas para transformá-lo. Se limitar à densa leitura da realidade e à especulação do futuro próximo são os fetiches do pensador catedrático. Os treinamentos e elaborações de modos de vida foram absolutamente terceirizados aos nichos de mercado que atuam como pelotão da linha de frente da infantaria do tecnocapital: autoajuda, lifestyle fitness, psicologias positivas, disciplinas do espetáculo esportivo, ideologias estoicas do mundo corporativo, teologias da endorfina. Enquanto a intelectualidade acadêmica, sisuda, se conforma com o ofício tautológico e sedentário: ser um obcecado dissecador das realidades impostas e um praticante e proponente de quase nada. As teorias explodem, se sobrepõem, se repetem, se entrelaçam, se agridem; os exercícios desaparecem.
5. A força de um encantamento se atrai pelo balbucio ou pela repetição prosaica de um mesmo exercício verbal ou acrobático. Nosso vício civilizado, da verborragia e explicação técnica sem fim, embotam as luzes sutis dos encantamentos, cimentam, pouco a pouco, as rachaduras por onde eles vazam. É preciso chegar à última página de um livro para lançar-se para fora dele.
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada O clarão das frestas. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.

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Felipe Moreno
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