Deus vai nos proteger (haibuns)

§ Faz um mês que quebrei o pé direito e quinze dias que tive alta da cirurgia que corrigiu o desvio do osso. Recuperação lenta, dolorosa, porém progressiva. Já me acostumei a ser o sujeito manco dos pequenos trajetos possíveis. Hoje, arrisco sair para caminhar até o restaurante universitário, a cerca de um quilômetro e meio, debaixo de uma exposição solar total, calor de 38 graus. Bota ortopédica bem afivelada, chinelo apenas no pé esquerdo, shorts, camisa largada no ombro. Na volta — agora, 39 graus —, o mais prudente é voltar de carro. Mas Maria Bethânia e Jards Macalé, nos fones de ouvido, sintonizados no esplendor desse azul nu e selvagem, me impelem ao sacrifício: vou andando, sim, manco do pé, torrado de sol, encharcado de suor. Em mim, não é o bem que vence o mal, mas a beleza. Em mim, a beleza vence tudo, sobrevive a tudo, faz toda e qualquer falta de sentido primordial, grave hipótese de absurdo cósmico, funda noção de erro, acidente ou tragédia parecerem condizentes, valiosos, pertinentes — por que, em si, até a consciência limítrofe é contemplada, engolida pela natureza desgarrável das coisas bonitas. Só há beleza e ela é o bem, o bom, o mau, o claro, o escuro, todo o resto. Sentir a dor do mundo enquanto viceja a beleza, que significa os diários espantos diante dos fenômenos da matéria: não encontrei, até agora, dádiva maior, contentamento mais pungente. Para recuperar fôlego, me recolho para debaixo da árvore.
jenipapeiro —
duas pombinhas enfiadas
na sua sombra
§ Ponto de doação do parque ecológico, cinco da tarde. Deixo minha sacola: livros velhos, quase todos cristãos. Encontrará seus leitores. Se unem a roupas esfarrapadas, calçados empoeirados, presilhas, pilhas, estojos, objetos de decoração, outra meia dúzia de livros desinteressantes e, de repente, isto: sacola de papel pardo, grande e, dentro dela, simplesmente, a obra completa de Machado de Assis, em dez volumes, edição dos anos sessenta, capa dura. Levo ou não? Decido que não: já não tenho Machado em casa, é verdade — dos que li, fiz circular. Mas resta pouco espaço vago na kitnet, a sacola é pesada, a caminhada de volta é longa etc. Vou-me embora. No cruzamento da avenida, o louco do bairro. Não aquele, do ano passado: aquele desapareceu. Esse outro é tão insano quanto: balança, violentamente, o pescoço, e balbucia. Acende minha curiosidade mórbida, apesar de óbvia: o que se passa dentro da cabeça desse louco, o que sente? Primeira semana de janeiro, bairro vazio: gente viajando, gente na praia. Aqui, agora, neste fim de tarde de luz laranja, passam, também, corredores com suas roupas fitness e cronômetros, trabalhadores em fim de expediente e cachorros de rua.
ocaso, calor —
na sombra, a cadela preta
lambe sua ferida
§ Deus vai me proteger em mais uma corrida de moto por aplicativo. Pego porque não tenho carro, junto dinheiro para comprar um carro, economizo para isso — mas ainda não cheguei lá, e a moto é sempre a opção mais barata nesta ilha engarrafada e com o transporte público mais caro do país. Dos capacetes, a miscelânea de perfumes indecifráveis, misteriosos, unissex: uma nova fragrância, com a presença do álcool que vem dos potes de xampu e a adição dos fungos alojados no estofo. Sul do mundo, calor dos trópicos, ruas esburacadas: deus vai proteger o motorista no comando desta Honda CG 160, William, 26 anos, pardo. Dezoito e quinze da tarde, céu ainda claro, oito minutos do meu destino.
estalo de moto
crepúsculo dourado
por doze reais
§ Verão, ilha de Santa Catarina: tudo que se vê é paisagem, tudo que se sente é calor. Subverteremos a noção de pecado até que seu único nome seja trabalho remunerado?
planejar o dia —
mas a vontade é de praia
esquecer das horas
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada O clarão das frestas. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.

Abraços e até a farfalhada #111,
Felipe Moreno
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