Cultura cyberpunk e a expulsão do mundo selvagem

1. O jovem classe média de 2024/25 (geração Z, principalmente) assume, em menor ou maior grau, a estética cyberpunk: alta tecnologia, baixa qualidade de vida; um gosto discreto, mal elaborado, pelas realidades distópicas. Ele volta a ser um pouco gótico, um pouco emo, um pouco trash; rechaça o hippie, com rótulo: são jovens místicos, tilelês ingênuos — e cafonas. Afirma-se com incongruência: em aparência, é cínico (vulgar, despudorado), em comportamento, um tanto moralista (mais careta, mais inclinado à monogamia).
2. O ideal hippie se desintegra: após 60 anos da sua aparição, restaram alguns ecos abafados e cacos polidos da sua expressão. (Só os primeiros millennials ainda conseguem ser um pouco hippie.) Assim, a nova estética cyberpunk é, também, resposta defensiva ao colapso geral do mundo: simulação e performance distópica como escudo à enorme e palpável distopia que se espraia. Simulam e performam doses homeopáticas de distopia para se proteger da grande distopia, com um juízo cinicamente fatalista: “O mundo já acabou, não adianta lutar contra nada. Estamos exaustos. Que botão aperta para voltarmos à infância?”.
3. Outro sintoma é a expulsão de qualquer aspecto estético que faça elogio ao mundo selvagem, à natureza indomesticada: é o retorno do preto, em detrimento dos tons terrosos; do aumento do interesse pelas viagens aos grandes centros urbanos, ante à indiferença às vivências no meio do mato, em aprendizagens de agroecologia ou permacultura. Em questão de política institucional, um boné do MST já não apenas sinaliza o óbvio da orientação política, mas também da faixa etária: veste um boné do MST algum esquerdista clássico, nascido entre 1965 e 1996 — muito raramente alguém de 2000 para frente.
4. Alheia a qualquer engajamento político-ecológico, propositalmente desvinculada emocionalmente do desabamento do mundo, também a cultura cyberpunk, no que esta tem de niilista, é responsável pela retração do vegetarianismo e veganismo entre as populações jovens. Até 2018, nos meios de esquerda, era cada dia mais comum a presença de pessoas, entre 17 e 25 anos, absolutamente comprometidas com o modo de vida vegetariano ou vegano. Durante a pandemia, que nos restringiu até o ar livre, a renúncia ao consumo de carne ou de qualquer produto de origem animal mingou: viver de sucessivas restrições foi duro demais; foi preciso afrouxar algumas das tantas cintas que apertavam nossos corpos. Muitas foram as minhas amizades que abandonaram, mesmo depois de cinco, dez anos, a dieta vegetariana ou vegana. Hoje, vejo a fila do restaurante universitário, com um público predominante de estudantes na faixa dos vinte: 85% come carne, qualquer carne, não importa se um filé de frango ou um nervo suíno acinzentado. Para a juventude cyberpunk, prevaleceu o desejo individual, quer dizer: a irrelevância individual frente ao problema sistêmico: “O que adianta, só eu parar de comer carne, enquanto o mundo...?”.
5. O lutar contra é o imperativo no qual a juventude cyberpunk já não acredita: a força do inimigo é muito grande, o preço a se pagar pelo que se luta, muito alto. O ativismo caiu no ostracismo; e mesmo a militância política, em maior parte, foi enquadrada como jornada de trabalho voluntário ou publicidade digital sazonal. Restou, então, a assimilação do mal, via ironia: fingem não saber de nada, enquanto sabem de tudo; inertes, fingem que terão futuro (embora brinquem que não terão), ao passo que reestilizam, fantasiam, fetichizam todo tipo de passado que não viveram. Cansados de discutir política, com alergia à palavra ecocídio, montados com peças garimpadas de brechó, no desejo gritante em ser apenas um garoto, apenas uma garota, vivem, dentro das suas performances meio distópicas, uma espécie de utopia retroativa, utopia retrô.
6. Um paralisante hedonismo de catástrofe se instala: a busca pelo prazer individual não a qualquer custo, mas pelo baixo preço de se dizer cansado, desesperançoso ou desistente de qualquer grande transformação. Como se a afirmação da fugacidade e da tóxica excitação dos prazeres individuais, via experiências de consumo, fosse o único ato de rebeldia possível. Nascida em 2001, em cidade grande, uma artista visual, garota branca, me confessa: “De uns anos para cá, fui largando os movimentos políticos que fazia parte. Às vezes, até o feminismo já não faz sentido para mim; já nem sei se me considero feminista. Também voltei a comer carne. Tô numa fase muito carnista. Tô cansada, na real. Meio que foda-se. O mundo vai acabar, já tá acabando: só vou assistir e fazer as coisas que tenho vontade”.
7. A cultura hippie tem baixa imunidade discursiva porque está desarmada da ironia: sua posição é aberta, simples e, sobretudo, necessariamente esperançosa, idealizadora. Lemas exaltados e utópicos contra o grande sistema, alterar os estados de consciência via psicodélicos, viver no mato: as proposições da contracultura, nascida nos anos 60, são um pacote de ingenuidades político-espirituais; no entanto são claras e, mesmo que seu lema universal seja “paz e amor”, se encontra em posição de combate, em confronto com o poder dominante.
8. Em contraste, a cultura cyberpunk, como hoje a assumimos, se apresenta equipada de uma fortíssima expressão modulada por uma ironia exacerbada, dominante, uma hiperironia que tem a função, dentre tantas, de combater as vulnerabilidades de qualquer pensamento idealizado. A hiperironia mata o vislumbre de qualquer horizonte e, com riso amargo, achata todas as possibilidades num agora sem proposição, sem ideal, que se prostra ante o dever e se isenta de qualquer responsabilidade coletiva. Um meme corrosivo e um look de garota rebelde são o antídoto eficaz para blindar o bombardeio das verdades aterradoras que chegam nas nossas telas: a biosfera colapsa, os donos do mundo só querem salvar a própria pele, há chances reais de que ao menos um terço da população humana, até o fim do século, seja extinta.
9. Vamos partir do pressuposto de que não há distinção antagônica entre cultura e natureza, entre natureza e tecnologias; o que há, porém, é uma escala de manipulação de toda matéria: entre uma árvore e uma placa mãe de computador, existe uma imensa distância pautada pela complexidade da interação e do manuseio humanos. Existe a matéria (ou natureza) intocada, bruta (mundo selvagem), indomesticada, domesticada, manipulada, hipermanipulada. A juventude cyberpunk tem empurrado até mesmo a simulação do mundo selvagem, ou a estética do mundo selvagem, para fora dos nossos meios. Produz a aversão ao mundo selvagem pois no fundo sabe que, muito em breve, dado o curso das coisas, este se voltará contra todos. Assim, torna-se cada vez mais viciada em matéria hipermanipulada, proliferada em todo canto, ao passo que se esquiva até mesmo da referência estética de uma natureza bruta, indomesticada: cada dia mais escassa, por isso inflamada, reativa, a natureza bruta já é uma realidade não familiar, apenas ameaçadora, monstruosa.
10. A natureza selvagem agride, perturba; então, como forma de se proteger, de sobreviver, a juventude cyberpunk se retrai ao mundo hiperurbanizado e mergulha nas telas; se cerca das materialidades hipermanipuladas e se enclausura em mundinhos cimentados e em realidades cada dia mais virtualizadas — pois estes todos dão a impressão de que os protegerão das ofensivas da natureza selvagem. A materialidade selvagem agride tanto, cada vez mais, que outro típico dispositivo de defesa é a hiperironia virtual: um meme para tratar do colapso geral do mundo, um meme para homenagear nossos futuros cancelados, um meme para anestesiar cada angústia e dispersar cada possibilidade de confronto com as problemáticas coletivas, existenciais. A juventude cyberpunk é a fuga ao hiper: hiper-retrô, hiperurbanizado, hipermanipulado, hiperconectado, hiperirônico.
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada Retalhos. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.

Abraços e até a farfalhada #92,
Felipe Moreno
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