Capitalismo e blindagem dos ritos de morte

1. Não houve paixão, viagem ou conquista material que transformou minha vida tanto quanto o acontecimento de ter visto um cadáver pela primeira vez. Lembro do cadáver do meu pai, que não foi o primeiro, mas o de feição mais pungente: meu pai acinzentado e frio, semblante sereno na face, quase um sorriso, adornado num caixão. Depois vi outros, e os pontos de inflexão, as rachas que surgiam no seio da vida, em conflito com a morte, mantiveram ressonância: o contato cru, tátil ou quase isso, de um corpo vivo, uma vida que vive, com um corpo morto, uma carne sem pulsação, já não é mero acontecimento, mas rito de maior importância, resvalado no chão e no teto da existência, das causas primeiras e últimas, rito que funda a cultura, que parece ter norteado a condição humana.
2. No rito de morte, embebido no tom da tragédia, três sentidos físicos são prontamente agredidos; e, a partir dali, o recondicionamento, o lançamento, ao mesmo tempo suave e rude, a uma outra percepção do mistério: os olhos que veem o cadáver tão de perto; os ouvidos que escutam, ao redor, o pranto de parentes e amigos; a mão que toca a carne fria. Ver e tocar o corpo morto, ouvir o próprio drama e o drama alheio: ampliação do mistério.
3. Alguns monges tibetanos atravessam o áspero — e mórbido — treinamento de meditar, dias a fio, em frente a um defunto. São aconselhados a observar, sem julgamento, a decomposição do corpo ao longo das horas e, se necessário, assistir ao banquete dos abutres, servindo-se de córneas e vísceras. Daí tomar nota, do fundo da consciência imperturbável, da inextricável impermanência de tudo que surge neste mundo.
4. Um coveiro, que nunca estudou, pode ser mais versado em metafísica que um doutor em filosofia.
5. Existe uma paulatina blindagem dos ritos de morte, estratégica, sistêmica, coordenada. É operada pelo capital, a fim de precaver as rachas revolucionárias que surgem nas consciências e nos corações; a fim de precaver as perturbações de ordem metafísica, de inclinação espiritual; a fim de superficializar os rombos e dopar os choques que a morte, em seu estado de fundura, proporciona à vida dos sujeitos.
6. Sexo e morte se misturam, convergem-se pelos seus fenômenos de dissolução. O erotismo experimentado no sexo é, em algum aspecto, um simulacro de morte, uma encenação de apagamento, essa pequena amostra de esvaziamento que a morte real, no fim, perpetua. E não me refiro à famigerada petite mort dos franceses, estritamente vinculada, me parece, à sensação de cansaço pós-ejaculatório do homem. Refiro-me à dissolução causada pela própria prática sexual saudável, não somente preocupada com a explosão orgástica, mas com o prolongamento e aprofundamento das excitações, e capaz de suscitar a sensação de apagamento dos contornos, ou fusão do si mesmo no outro.
7. A blindagem dos ritos de morte e a pornografização da sociedade se espelham não à toa: para ser bem sucedido no seu projeto de zumbificação coletiva, o capital maquina sexo e morte, industrializa seus processos, corporativiza suas práticas, desintensifica seus sentidos. Enterrar um parente e se masturbar já não se tratam de ritos que imergem a pessoa nas funduras dos sentidos e significados, mas privilégio de consumidores que precisam resolver, da forma mais prática, cômoda e ágil, seus desconfortos.
8. A blindagem dos ritos de morte e a pornografização se espelham, almejam o mesmo fim, mas se contrastam nos seus modos de operação. Nos privam do contato fundo com a morte; nos escancaram o sexo explícito. Talvez porque, simplesmente, nos privar daquilo que dilacera convém, ao passo que convém — para nos tornar mais e melhores consumidores — multiplicar as plataformas daquilo que nos excita. A despeito do contraste dos modos de operação, ambas, blindagem dos ritos de morte e pornografização, buscam o mesmo destino: superficializar a vida, ou vedar, com maquiagens tóxicas, os buracos que nos levam aos sentidos mais ocultos. Maquiar a fundura da morte, até que esta desapareça de vista e, no lugar, alojar a proliferação pornográfica, ela mesma a maquiagem que embota a fundura do erótico.
9. Há cem anos, o brasileiro médio velava seus mortos na sala de casa. As lágrimas se misturavam com a gordura dos salgadinhos e o açúcar dos refrigerantes, que eram servidos nessas festas fúnebres. Uma semana depois, a viúva, ainda enlutada, esticada na cadeira de balanço, embalava sua sesta, nessa mesma sala onde velaram seu marido. Um mês depois, no mesmo ambiente que acolheu a morte, celebravam a vida: o aniversário de uma criança ou algo do tipo, com os mesmos quitutes e refrigerantes. Velavam a morte em casa porque, muito mais comum, morria-se em casa.
10. Disse Nelson Rodrigues, no seu tino indisfarçável para a morte, na sua obra que era apenas sobre amor e morte, segundo ele mesmo, ou algum outro autor, talvez Tomas Mann: “A cama é um instrumento metafísico: nela nascemos, amamos, sonhamos e morremos”.
11. Desperto às quatro da manhã, mais uma vez, por causa do assombro. O quarto no completo escuro; me sento na ponta da cama e a consciência refaz a questão latente e final, incrustada nos meus nervos desde sei lá qual tenra idade: meu deus, quando e como será o momento da minha morte? Haverá ou não agonia nos momentos precedentes? Vou à janela e abro o vidro. O tempo frio me certifica a vida, ao passo que agudiza meus espantos.
este galho seco
intacto sob o breu —
madrugada fria
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada Retalhos. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.
Abraços e até a farfalhada #65,
Felipe Moreno
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