Bicicleteiro do bairro, pinscher, pitbull, garapuvu: três haibuns

§ Bicicleteiro, oficina no fundo da casa de madeira, Rosimar vive com um pinscher adestrado. Diz que é seu secretário: “Viu que ele latiu na janela? Me avisou que era cliente com pneu furado”. Era, justamente, o meu caso: cheguei ali para também consertar o pneu furado da minha magrela. Recolhe minha bicicleta, passa o orçamento (abaixo das bicicletarias superfaturadas da região), incia a cena coreografada com Luque, o pinscher macho. Pede para eu prestar atenção: rodeado de quadros, rodas, pneus, ferramentas, conversa com o cachorro, pede para se sentar, ficar de pé, dar a pata, pegar o brinquedinho — e nada é falho, tudo sai de acordo. Rosimar e Luque: quase um número de circo, gratuito, inusitado. Vim apenas para deixar minha bicicleta para conserto, vou embora tocado por uma graça ampla, entre o cômico e o delicado.
Pede para eu voltar na quinta-feira; nos despedimos: Rosimar, Luque e eu. Ganho a rua, volto à pé, percebo: é o pedaço mais gostoso deste bairro cumprido, em disputa. Silêncio na calçada. Casinhas coloridas, fundos do bairro, à sombra do furacão imobiliário que, logo à frente, chantageia, despropria e empilha blocos, desenraíza o que é da terra e aquilo que, de muito básico e singelo, se criou sobre a terra: casas comuns, quintais, bichos, gente de chinelos. Mas não totalmente. Ainda não a mim, não a Rosimar e sua oficina, não ao seu minúsculo e astuto secretário.
simples assim —
o bicicleteiro e seu pinscher
já são meus amigos
§ O pitbull triste, tristíssimo, no pátio cimentado — puro cimento, deserto cinza e duro, sem um único e escasso ramo verde do que quer que seja —, na casa do início da rua, onde nunca vejo ninguém, senão o pitbull desacompanhado, amoado, muito triste. Passo em frente, ele se levanta do sono, se aproxima, não late, abaixa as orelhas, olhinhos lacrimejantes, focinho seco, craquelado. Meu medo de pôr a mão, mas ponho. Carente de tudo: geme. Meus olhos também lacrimejam.
é fêmea
vem até a grade, boceja —
as patas lambidas
§ Quantos poemas sentados no meio-fio, sobre o meio-fio, à luz do meio-fio. Mundo velho, cimento áspero, tênis gastos, árvore larga, meu corpo embaixo dela.
garapuvu —
meu corpo sob sua guarda
guarda haicais
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Abraços e até a farfalhada #118,
Felipe Moreno
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