Beleza e morte: esboços divagantes entre Bataille e Buda
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1. Desviada do imaginário pornográfico, do fetiche falocêntrico, da dinâmica sexual de frenesi e despejo, aceleração, explosão e queda, a relação erótica, cadenciada e expandida, abre curso à dimensão poética da vida.
Assim também o budô (artes marciais), pelo vetor yang, de esforço e garra, disciplina e conduta tesa: após tanto empenho e repetição, o vigor da prática, através do refino do corpo através de movimentos de guerra, pode desembocar num caminho de vivência estética (samurais cordiais, samurais poetas, por exemplo; Bashô mesmo, patriarca do haicai, é de linhagem samurai).
Abertura, mergulho, lapsos de morte, fusão e reintegração: a relação erótica, mais calcada na dimensão yin que yang, ao passo que reenergiza, libera os sentidos ao deleite estético, a um canal de ternura. Pulsão natural, mas não necessária, segundo Epicuro (que, ao que indica, era celibatário), o erotismo dos corpos é zona delicada, linha tênue, nebulosa, escorregadia: pode fazer da nossa vida tormenta ou bálsamo.
Por extrema fidelidade à prudência e ambição de sabedoria, muitos filósofos, ascetas e monges fecham a porta ao erotismo físico para nunca mais: acessam suas deleitosas dissoluções pela via da perpétua solidão, do não contato, do poro intocado e puro — assim, pela aspereza de suas asceses, também correm o risco de extinguir a própria visão poética do mundo.
Contudo há indícios (das oportunidades empíricas à literatura, do misticismo ao que nos aparecem em sonhos) de que a entrega a um outro corpo, visando não o mero gozo, o efêmero espasmo muscular, mas uma dimensão de estética e ternura (dimensão poética), a deixar um eco e um perfume para além do próprio sexo, exige esse caminhar no fio da lâmina: coragem com prudência, investida com delicadeza, avanço no escuro em busca de luminosidades, tato, muito tato, ainda que as carnes se finquem uma na outra.
2. Há algo do erótico, do frescor do erotismo, que me abre ao assombro estético. E o assombro estético, em mim, é o que há mais religioso, meu primeiro e último impulso sutil, fenda e abismo com algum potencial de me demover das carcaças e me refazer na totalidade.
3. A tormenta de uma paixão não correspondida parece, às vezes, ter implicações mais graves que o dilaceramento provocado por um luto. Neurotizar sobre quem desejamos e não nos deseja pode nos consumir mais que a árdua tarefa de consentir a morte.
4. Sem a morte, a vida seria tiranizada por uma superficialidade insuportável.
5. Mesmo que a morte seja o mais atroz e violento fenômeno da existência, a vida eterna na Terra seria o maior dentre todos os desastres. Sentimos a desolação agressiva que a morte causa; também sabemos, de forma mais sutil, do mínimo de sabedoria que ela nos concede. Perder alguém é, além do mais, paradoxalmente, ganhar um pouco de luz.
6. Que, no fim de todas as jornadas, todas as minhas metanarrativas desapareçam, e restem só eu e a vida, eu e a morte, as mortes, a vida, no contato cru e límpido, risco, fio da lâmina, no solo do silêncio, a me desfazer.
7. A iluminação, como posta pela tradição budista, em senso amplo, me parece, de fato, inatingível, pela sua feição de perfeição e também pelo paradoxo de que atingir presume busca e busca, desejo, portanto, serpente que morde a própria cauda e não pode sair do lugar.
Não busco iluminação, mas, invocado pelo mundo e pelo mundano, sou arrasado por clarões, lapsos de luz e calor, luz e som, lágrimas nos olhos e contentamento, que surgem e somem feito raio ou enigma.
O clarão no ponto de ônibus, escutando Janis Joplin, segunda-feira, cinco para as duas da tarde. A gravidade estética retumba no que, em mim, há de mais profundo: meu rosto transfigurado pelo sol e pela beleza bruta da matéria. Clarões são fugazes, frugais. Mas, uma vez manifestos, impingidos na consciência, deixam sua marca.
Não sou apenas limitado e extraviado o suficiente de uma certa pureza para jamais ser santo: além do mais, sou esteta demais para encarnar uma linguagem sacra.
8. A beleza é uma egrégora com potencial de comportar todas as coisas: amor, simplicidade, compaixão, sabedoria, lucidez. A egrégora da beleza é a única que me convém, que me atém. Surrupiá-la seria impossível: ela me persegue, está em mim mesmo quando não tenho olhos para ela. Embora impossível, desbancá-la seria cometer atentado grave, injúria contra a ordem sutil. Ou me diluo na beleza e tenho tudo — até me tornar esse maravilhoso nada, apenas paisagem e música — ou me extravio de tudo.
9. Mundo da matéria: denso por que belo, belo por que denso, belo apesar de denso?
10. Ter contentamento no refino das coisas, na sutileza dos acontecimentos, não no arroubo ou em qualquer forma de estardalhaço. Deposito minhas verdades ao lado de um Epicuro e de um Buda, porque os considero, realmente, mais sábios que a maioria. Embora, no fim, eu perto deles seja um desregrado, devasso, descomprometido. Mas não importa o quanto eu erre, me desvie, perca o foco, meu ponto e meu norte estão ali: num acurar das sensações a expandir o sutil, na mística da respiração, na estética do ínfimo.
11. Só a beleza me fez chorar. O resto, expresso em lágrimas, foi lamúria ou pranto.
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada Retalhos. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.
Abraços e até a farfalhada #59
Felipe Moreno