Beirado de velhas casas, mente sem projetos e outros haibuns de verão

§ A decrepitude geral da matéria jamais frustrou meu gosto e elogio ao mundo. Mês de março, seis da manhã: o sol já é quente, telhados brilham, o ponto de ônibus, os cachorros, trabalhadores…
ah, luz amarela
incide o tom sobre tudo —
caminhões, pardais
§ Bunda no meio-fio, olho nas árvores, concentrada distração: nenhum vestígio de querer faz morada, instante sem precipitação, instante mamífero, antigo, telúrico e, no entanto, refinado. Monotonia para lá da monotonia: alegre melancolia. Ou nem isso: sobra a força da presença sem projeto, desprojetada, firme e vagabunda, resina da experiência sem cálculo ou sobressalto.
mormaço —
a dança das folhas dita
a respiração
§ O beirado dessas casas velhas e simples, telhas marrons, tomadas de limo, e os arbustos selvagens que crescem, à revelia, rentes às suas duras quinas: rara oportunidade em que a civilização dá as mãos à vida verde que desponta a despeito dela, sem interrompê-la no seu prolongamento, até que caiam flores.
quantos jasmins
no colo do telhado —
cai um, rodopiante
§ Puxa o maço do bolso da frente da camisa listrada, três botões abertos, peito seco, cavo, de asmático. Puxa o maço e cai o pente: redondo, colorido, de encaixe na palma das mãos. Abaixa, apanha o pente, busca o isqueiro, no mesmo bolso, acende o cigarro. Vê o mar, mexido. O céu troveja, não se assusta: traga forte, assopra, e a fumaça se esvai no vento, rápido, em direção contrária. Lá vem chuva, e o vento: gotas, mísseis d’água, na diagonal. Agora, sim: crispa o corpo, vira as costas, atravessa a rua, se instala na beiral da padaria, traga, assopra, traga, retorna os olhos ao mar.
pele acinzentada
velho, cigarro nos lábios
o mar nos olhos
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Abraços e até a farfalhada #115,
Felipe Moreno
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