As impossibilidades do pessimismo (ou a esperança dos desesperados)

§ O otimismo é a pura ingenuidade ou o desespero pelo melhor, sabemos. Mas, em contrapartida, o pessimismo é só mais um luxo ao qual eu não posso me dar.
§ Na indignidade dos ônibus hiperlotados, sob o terror de violências domésticas e de trabalho, no estourar de tragédias familiares, durante anos a fio minha mãe enfrentou e venceu tudo aquilo que insistiu lhe arruinar. Por essa razão congênita e de criação, não posso me dar ao luxo de ser pessimista: seria assumir a versão de uma criatura mimada e egoísta que não honrou as tantas batalhas de quem me deu a vida e, através das batalhas vencidas, nos manteve vivos.
§ O pessimismo é uma orientação intelectual que, no geral, depende de uma privilegiada condição material: com três refeições diárias garantidas, férias remuneradas e, no mínimo, uma propriedade, aderir a uma visão absolutamente desesperançada é afirmar o privilégio da preguiça em não poder fazer do mundo um lugar melhor. Na miséria ou na pobreza, a inação é exceção: luta-se, conduzido pela fé basal da necessidade de sobrevivência. Possibilidade estética dos preguiçosos e amargurados — mas bem alimentados —, o pessimismo é mais estilo que filosofia, pompa do que sentimento real. Uma estética europeia, afinal. Já o niilismo, cru e verdadeiro, um niilismo prático, só pode ser atribuído àqueles que apertaram o gatilho contra a têmpora. É fisicamente impossível sustentar a existência sobre um nada negativo e agonizante.
§ Levo comigo a pergunta do personagem Michael, ativista desesperançado — desesperançado e desesperado —, do filme Fé Corrompida, de 2017: “Como você acha que vai ser o mundo daqui a cinquenta anos?”. Pergunto às amizades, aos familiares: “Como você acha que vai ser o mundo daqui a cinquenta anos?”. Levo comigo, ainda mais fundo, a resposta dada pelo padre Toller, protagonista do filme: “Coragem é a solução para o desespero. A razão não fornece as respostas. A sabedoria acolhe duas verdades contraditórias em nossa mente, simultaneamente: esperança e desespero. Uma vida sem desespero é uma vida sem esperança. Ter essas duas ideias em mente é a vida em si”.
§ Penso nos meus dramas familiares — uma somatória de aberrações que sequer tenho coragem de contá-la. Sobreponho, à minha envenenada trama familiar, os transtornos e aberrações do mundo, da época. Do terror doméstico ao horror planetário, soa heroico, um milagroso desvio do padrão eu jamais ter cogitado a opção do suicídio. Esse lancinante ejetar da existência, acionado por si, nunca me foi uma carta na manga — para alívio da minha mãe, dos padres, pastores, psicólogos e analistas. O que há? Talvez apenas essa inata disposição em ter viva, na carne e na consciência, a sensação de que o terror não finda a beleza. E de que a vida que vive em mim, muitíssimo mais resistente do que a vida que julgo ser minha, me leva adiante pelos caminhos, sempre com um ar inextinguível de contentamento, não importa a densidade da noite e a profundidade dos abismos.
§ Até quando perdura a latente agonia do colapso? Já não sabemos se o aguardamos ou se ele já se instalou na realidade social, psíquica, neuronal. Ou se o pior já se incrustou nas nossas vidas — e ainda virá, a qualquer momento, um novo pior além do pior. A tormenta domesticada, o fim do mundo esticado, perene, plasmado no cotidiano. A barbárie acomodada no dia a dia, sem que nada de significativo irrompa. De tão inteligente, o capitalismo se tornou a grande praga invisível, impalpável, força de proporção metafísica. Nosso adversário tem ampla vantagem no placar, é tecnicamente superior, administra o jogo, já não teme a virada. Entramos nos acréscimos, a poucos minutos do apito final. Precisamos de um milagre. Que nos reste a sobriedade, a convicção da possibilidade da nossa extinção. Mas ser sóbrio é, sobretudo, não cansar a esperança: trazer alguma esperança à esperança.
§ Momentos em que nada estraga meu contentamento, coisa radiante e plena, pura alegria de existir, a vida que vive em mim, me faz vazio — e transborda. Nada, senão a lembrança da nossa titânica crise civilizacional, o atoleiro em que estamos, o planeta na encruzilhada, sob altíssima temperatura, dominado por homens perversos. Refaço o pensamento, a proposição e a promessa: nada deve estragar meu contentamento em apenas existir, minha simples exuberância de viver, nada, nem o mais grave senão. Ainda que não haja para onde escapar: alegrar-se até diante da colisão terminal da crise. Serei capaz?
§ De repente, o niilismo descansa no meu peito como um trabalhador exaurido que derruba a cabeça no travesseiro. Não há esperança. Tudo, ao meu redor, me assusta, me prostra, resseca a trama fina das minhas boas expectativas: bilionários, carros elétricos que não mudarão nada, minha baixa renda, desertificação da Amazônia, Estados Unidos, o imóvel que eu estou tão longe de comprar, esse sol agressivo, especulação imobiliária que varre a minha cidade, o pandemônio aparentemente incontornável que as redes sociais produziram nas subjetividades e no tecido social, genocídio e a previsão de genocídios ainda maiores etc. Tudo degringola, colapsa: a força de uma gravidade que mete a humanidade ralo abaixo. Inútil resistir, esperançar, tarde demais etc. Tudo se desintegra, se caotiza e, no entanto, a despeito das barbáries, tudo é tão bonito. Vou me agarrar nesse fio de sentido ínfimo, nesse valor com quê de graça e absoluto que pulsa, imperturbável, sob os destroços e o manto de atrocidades dos homens sórdidos. Agora, sim: aqui ninguém me alcança. Em louvor à ternura, ao sopro da vida, vou dar um grito de guerra e seguir em frente.
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada O clarão das frestas. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.

Abraços e até a farfalhada #94,
Felipe Moreno
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