Arrebatado para baixo

Do imensurável. A catástrofe ecológica que se aproxima, minuto a minuto, de uma sexta grande extinção em massa, é o evento nevrálgico não de uma geração, não de um século, nem mesmo de um milênio da história humana, mas de toda uma era geológica. O que chamam, hoje, de emergência climática, lembremos, é apenas uma das facetas da catástrofe, esta que deflagra os erros da história humana e exige redirecionamento, que está na história do mundo, ao passo que, descomunal, é além-história. Podemos, no cotidiano, diariamente, dimensionar seu tamanho?
Arrebatado para baixo. Quando a consciência do fim do mundo me atinge o âmago, sou capaz, como raríssimas vezes acontece, de abandonar meus pensamentos fúteis e autocentrados, mesquinhos, lascivos, avarentos. Sob o peso estratosférico da derrocada do mundo natural e todas as suas consequências inéditas e imprevistas, me abro à fraqueza, à franqueza, e me restituo do bicho humano que sou, em carne, consciência, vulnerabilidade. A consciência do desabamento do mundo tem a extraordinária capacidade de me arrebatar para baixo, de arremessar meu rosto contra o solo árido — e, nesse movimento brusco de assombro e dor, posso, temporariamente, dispensar a maré da frivolidade e reativar, enfim, a dimensão trágica da vida, do valor da vida, do que e pelo que é importante viver.
Redoma da civilização. Ainda pensamos a civilização moderna, antropocêntrica, como redoma indestrutível, capsula que nos projete e nos alija de todo mal exterior, que nos faz viver, prosperar e avançar. Torpe percepção, digna de pena. Nossa civilização é uma casca de machucado, grossa e escura, pendurada por um fio na vasta epiderme do mundo.
Cosmovisões cindidas/1. O espírito, que é essência, luz e pureza, deve se livrar da matéria, plataforma do maligno: premissa das cosmovisões dualistas. Zoroastrismo, gnosticismo: teleologias do deserto, metafísicas fundadas na atmosfera da aridez, da escassez. O dissenso científico sobre a origem do Antropoceno: pós-Guerra Fria; pós-Segunda Guerra; início da era industrial; início da era agrícola. O embrião do Antropoceno, no entanto, nasceu de uma visão: a que subjuga a Terra, preenche-a com as noções de erro, falsificação, prisão. A histeria metafísica contra a matéria. O desespero de fugir da imanência. Daí em diante, o fomento da nossa megalomania, certeza de gigantismo que visa domar este plano, este plano que não é o bem.
Cosmovisões cindidas/2. Quem atenta contra a matéria, primeiro em visão, depois em empreendimento físico, em grande escala, colhe, três mil anos depois, turbilhão, terror, desequilíbrio cósmico. Atentar contra a matéria, atentar contra a imanência: pecados capitais que forjaram o Antropoceno.
Cosmovisões cindidas/3. Porque somos a Terra, mas agredimos a Terra, somos a doença autoimune da Terra.
Haibun do esplendor. Em minutos, segundos, o firmamento varre a noite e se encharca de dia. O grande palco das transições; a encenação que sugere: vida é trânsito de opostos. O esplendor no limite que nos é dado ver. Não fosse o esplendor, a evolução das espécies seguiria curso? A beleza não é necessária à sobrevivência? Será que nunca cogitamos tal hipótese exatamente porque tudo é belo e, não fosse tudo do jeito que é, a vida não se sustentaria? A espécie que sabe do esplendor, caso diluísse seu saber em contemplações silenciosas, se familiarizaria com tudo, reintegraria tudo, saberia quase tudo. Mas preferimos fechar os olhos e sonhar os sonhos que contêm apenas as nossas próprias expressões. O relógio vai marcar cinco horas.
o velho se atém
à aurora vermelha —
um sabiá canta
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada Retalhos. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.

Abraços e até a farfalhada #71,
Felipe Moreno
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