Aniversário

Quarenta e oito meses
Três de março de 2022: primeiro envio da farfalhada niusleter, para pouco mais de quarenta inscritos. Dois de março de 26: envio do texto de número 113. Dois anos, ou quarenta e oito meses, média de dois textos por mês; cento e treze disparos, 58 mil palavras, 353 mil caracteres (as contagens do arquivo de texto ajudam a abrilhantar minha neura metódica não exatamente com metas, mas com datas e números). Uma regularidade, uma constância que, não remuneradamente, por paixão, gosto, sentimento de necessidade pelo ofício, eu ainda não havia exercido nos meus anos; senão, talvez, no karatê — e o karatê, como já disse, é a outra prática entrelaçada aos meus exercícios literários, minha outra forma de acessar a poesia.
Nunca pedi um centavo: escrevi na internet, repito, por gosto, vontade de compartilhar, mobilizar frentes utópicas, via literatura, no ciberespaço. E, desde então, para pagar as contas, manter o sustento básico da vida, tenho me virado de outras formas. Nunca pedi centavo ou PIX, nenhum código QR para minha conta bancária, nenhum apoia-se, nada. Confesso agora: também em razão de pudor e vergonha, receio de fracasso, pitada de conduta narcisista, classuda, como se sugerir um simples apoio financeiro, em retribuição à minha escrita, fosse implorar por esmola, migalha.
Não é, óbvio. Talvez, menos neurótico, eu nem precisasse adentrar essa justificativa, quase ladainha. Apenas escrever: depois de quatro anos, a farfalhada niusleter continuará gratuita a todas as pessoas a fim de acompanhá-la, seja por e-mail e/ou uma URL; no entanto, passará a sugerir apoio, desde os valores mais baixos, de maneira espontânea ou regular. Cinco, dez, vinte, trinta, cinquenta reais. Para me dar mais ânimo e fôlego, colaborar a pagar o pão e o café, reduzir doses de preocupação financeira no fim do mês, proporcionar horas livres para tecer, mais e mais, novos retalhos textuais: miniensaios, crônicas, haicais, haibuns, fragmentos, miscelâneas.
Aperto e liberdade
Sou um quase mestre em literatura (defendo daqui a sete dias), e já sem bolsa (recebi a última mensalidade em fevereiro). Recém ingresso num doutorado, na mesma universidade federal, e ainda sem bolsa: avancei no status acadêmico, perdi subsídio, subtraí a renda. Como quem, numa empresa, sobe de cargo e, como consequência, perde o salário. É a vida acadêmica, sabemos nós, discentes e docentes, e até você, distante dela: árdua, de dura hierarquia, desigualdades abissais, produtivista à beira da insânia, financeiramente à margem do inviável. Escrever uma tese, no absoluto rigor científico exigido pelos doutores, ao longo de quatro anos, com o risco de não ser retribuído com um tostão. É a paixão, o gosto pela coisa. Única razão possível pela qual nos sujeitamos.
Segue a Casatrês, minha editora artesanal e caseira, sendo a frente financeira da minha vida. Mas só deus e eu sabemos o quanto, aqui, a paixão extrapola tudo, a razão sobretudo: pagar as contas com o trabalho de uma minieditora de livros feitos à mão, imagine. Mas assim levo, à risca, ou com a água no pescoço, há seis anos. Adaptei meu mundo, dispus os desejos rentes ao chão, invoquei a simplicidade de Pepe Mujica ao meu modo de vida. Moro numa kitnet, dinheiro contado, sem carro, só uma bicicleta. Como me sinto? Apertado e, ao mesmo tempo, livre.
Quero apenas afrouxar um pouco o aperto. A partir do ano que vem, quando pintar tempo, devo estudar para algum concurso público. Para este ano, a ideia (até que a bolsa venha, para melhorar a situação, quem sabe já, por sorte, ou apenas daqui a dois anos), a aposta é me manter por meio de duas frentes: a vida de escritor (farfalhada, trocados de direitos autorais, oficinas, cursos, eventos e afins) e a de editor artesanal. Afrouxar o aperto, me manter livre, segurar as pontas.
Farfalhada niusleter
Nem tenho, assim, tantos inscritos. Mas as pessoas leem o que escrevo, me escrevem de volta, agradecidas, elogiosas, assustadas. Por um lado, a coesão dessa niusleter é meramente estilística: porque fragmentária e, quando poética, sempre haicaística. Por outro, em temática, é miscelânea: posso escrever o relato de quando achei uma calopsita na rua ou como os bilionários da tecnologia são homens miseráveis; aforismos sobre estética e política e diários de viagem. Assim faziam os ensaístas e fragmentistas japoneses, que escreviam nesse gênero chamado zuihitsu (justamente, uma miscelânea fragmentária, numa miríade de temas), no qual me inspiro.
Também a noção de lugar e ocupação do texto, sobretudo o literário, no ciberespaço, segue coerente. No meu primeiro texto, escrevi:
No enxame de imagens e vídeos (saturação e ruído) do mundo digital, o texto reage. Na profusão das redes que empilham snaps, a literatura escapa. O e-mail é sólido, não dispersivo. A internet, no geral, tornou-se aquilo que jamais deveria ser: manipulação algorítmica em prol do capital. O e-mail, em partes, resiste. (...) Depois de tanto, apesar de tudo, minha aposta nas possibilidades do e-mail, da niusleter, é grande: ferramenta pioneira da internet, insuperável e insubstituível, ancestral da comunicação digital, o e-mail se apresenta como ferramenta de contraponto e resistência à voracidade e fugacidade das redes sociais monopolizantes.
Há quatro anos, o Substack expandia campo e abocanhava público. Hoje, praticamente todas as niusleteres brasileiras estão no Substack. Quis, de todas as formas, desde o início, evitá-lo: a usabilidade era terrível (ainda é) e o motivo principal, político. Sua publicidade amistosa, sua autoimagem de contracorrente das principais redes sociais, com suas mídias frenéticas e saturantes, nunca me convenceu. Por baixo da interface amena, de velho blog, como espaço de acolhimento de uma grande família de escritores e leitores, sob a casa bem decorada e hospitaleira, a mesma estrutura podre: bigueteque californiana, de códigos fechados, investimentos exorbitantes, subordinada e cativa, do nascimento à morte, ao modelo de negócios financeirista dos parasitas especuladores: bolsa de valores, ações, o cano na têmpora para que, em pouco tempo, passe a gerar lucro, lucro e lucro. Por fim, tornou-se um monopólio e traiu sua própria promessa de ser uma plataforma de niusleter: tornou-se uma rede social algoritmizada.
A ideia, com a criação de uma niusleter, era apostar em alguma radicalidade quase completa, mínima que fosse — e que é. Não queria cair num outro beco, de endereço diferente, mas cujos mandatários eram os mesmos. Apostar em alguma radicalidade (para contrapor, também, minha submissão à Meta, ao Google e à Apple), para me fazer lembrar, lembrar a mim mesmo ao menos, que o ciberespaço — embora, hoje, só nos restem frestas — ainda é um lugar de disputa, de promoção de sonhos e futuros interrompidos e adiados.
No mais, a não ser pelas frestas, a internet se tornou um feudo de poucos donos, gente do pior tipo: megalomaníacos, narcisistas doentios, em frenética escalada ditatorial, eugenista, nazista. As redes sociais são o jatinho, em velocidade estonteante, num céu comprado (roubado): plataformas da manipulação pela máquina de ação rápida, da pilhagem de dados e atenção, da drenagem das nossas saúdes, do atordoamento audiovisual, da redução, a nível do brutal achatamento, das possibilidades multimídia num mesmo espaço amplo, mais sereno, arejado.
Dobro a aposta no e-mail, nos potenciais ainda não destravados do e-mail. Dos blogs, das mídias “ultrapassadas”. Mantenho a conta numa plataforma pequena, desenvolvida e gerada por um único programador, o Buttondown. Em breve, devo migrar para aquela que será a aparição de um outro grande desejo esculpido: o Bemte.li, a primeira plataforma de niusleter brasileira, em construção já há três anos, e criada por mim e duas amizades, luana adriano e Luccas Quadros.
Na linguagem, mantenho o aportuguesamento integral de todo e qualquer anglicismo: niusleter, linque, bigueteque. Contemplo os bons ventos que a farfalhada me gerou e espero mais. Foi a farfalhada niusleter, afinal, que me rendeu o convite para ser publicado por uma grande editora. Sem farfalhada não haveria O clarão das frestas: dez lições de haicai encontradas na rua.
Sentimento de mundo
Escrevi demais. Vou às considerações e informações finais. Assumo, agora, um tom mais grave e geral; e, ao mesmo tempo, íntimo: compartilho meu sentimento de mundo.
Não temos futuro coletivo traçado. Ou o que temos à frente é um horizonte único e terrível, consequência do roubo praticado pelos donos do poder, parasitas ensimesmados, das várias outras possibilidades de porvir. Uma sincronização do terror segue curso rápido: entre o apocalipse climático e a sintetização da vida através das novas tecnologias. Ambas, produzidas e potencializadas por nossos algozes, têm o potencial, dentro de poucas décadas, de nos exterminar.
Minha luta, diária, também consiste em evitar a conclusão de que se preparar para o pior é nossa melhor opção. Por isso, aceito qualquer migalha revolucionária. Pego carona, embarco na locomotiva de qualquer insurgência política que tenha o objetivo de enfrentar, com todas as forças, a estrutura dessa sincronização do terror e seus promotores. Mas nossas rebeldias encontram-se em estado de sedação e, além disso, particularmente, não disponho de vocação, tenho baixíssimo traquejo para o fazer político comum (partidos, coletivos, liderança de grupos e afins). Sou escritor, poeta, pesquisador, leitor voraz.
Por enquanto, não temos futuro: vivemos (já não só como grupo político, povo, nação ou etnia, mas como espécie) a curva acentuada em direção a um estranho escuro, ponto de inflexão maior da biosfera. Escrever é dispersar o desespero, cristalizar ideias, pensar junto, criar alentos via estética.
Começo pedindo apoio financeiro, termino mórbido: sou, ainda por cima, um péssimo publicitário de mim mesmo, das coisas que crio. Fui sincero. Expus minha realidade cotidiana e material, compartilhei meu sentimento de mundo, meu senso sobre nosso tempo histórico. Por que tamanho salto entre um ponto e outro? Porque esses pontos não estão inteiramente separados. Pelo menos na minha (neurótica) vida: tudo entrelaçado, miscelânea, ainda que fragmentária.
Ano após ano, quero continuar a escrita do meu mundo, do que vejo e sinto. De repente, muito à frente, eu termine com um único e singelo haicai. Antes, tenho bastante a registar. Mesmo que em fragmentos, sempre, bastante a dizer. O apoio de quem me lê, daqui em diante, passa a ser valioso.
Um código QR estará sempre disponível aos finais de cada niusleter. Colabore com o quanto possa. Se puder um pouco mais, compre meu livro. E, se não pela moeda, que tal com indicação da farfalhada? Na plataforma Apoie-se, criei um perfil para receber diferentes contribuições, com suas respectivas recompensas. Aqui, você pode colaborar de forma mais perene.
Que nós — e, junto, a farfalhada niusleter — possamos criar um futuro que nos inclua, que nos interesse viver.
Acompanha a farfalhada niusleter? Que tal apoiá-la? Você pode fazer uma contribuição espontânea ou recorrente, em qualquer valor, via PIX, através do código QR abaixo. Ou, de forma contínua, através do Apoia-se, clicando aqui.

A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana.

Abraços e até a farfalhada #114,
Felipe Moreno
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