A tentação da erudição acadêmica

§ Ainda que eu ande entre corredores e salas universitárias, próximo de tantos catedráticos, doutores, pós-doutores, gente que leu doze mil livros, que deus me proteja da tentação de me tornar mais um: douto, perito, máquina de citação, um banco abarrotado de ideias e conceitos. Que, na perigosa trajetória acadêmica, eu esteja minimamente imune da soberba e dos poderes que imperam na academia; que eu consiga resguardar aquilo que faz de um escritor um escritor: a observação ferina e, no limite, a coragem de se lançar, sem aporte alheio, no poço das próprias experiências.
§ Um amigo me conta o caso de um professor, querido por todos, de uma universidade estadual, de uma cidade pequena, num estado que já não me lembro qual. Velho, para se aposentar, no seu discurso de despedida, diante de alunos, professores e reitores, fez um desabafo íntimo: “Minha maior falha, em tantos anos de vida acadêmica, foi ter me tornado um erudito. Li muito e me arrependo. Travei discussões teóricas inúteis e me arrependo. O que de mais importante construí neste espaço foi a amizade. E o arrebatamento que dois ou três poetas me proporcionaram”.
§ Nos departamentos de filosofia e literatura, há um sem número de fetichistas de autores e obras. Espaço onde se exerce, sem moderação, uma gritante idolatria do verbo e do conceito; espaço rigorosamente secular, laico — quem mantém, no entanto, a tradição religiosa do culto e da adoração. Se o pensador ou escritor for francês ou alemão, a veneração ganha o tom da sacralidade. Somos, mestrandos, doutorandos, mestres, doutores, viciados na submissão filosófica e literária, apaixonados pelo tributo que pagamos a meia dúzia de santidades letradas.
§ Na vida acadêmica, poucas coisas são tão heroicas quanto admitir — sem rebaixamento, sem fraquejar a voz, mas com a tranquilidade de um campesino —, diante de um público de eruditos, que não leu tal obra ou que não conhece determinado autor.
§ Temor à espreita: de me tornar um banco de dados acadêmico, uma indústria bibliográfica, sujeito que não enuncia a mais simples e concreta frase sem citar um autor europeu; e já não mais estar aferrado à promessa, à coragem de me manter debruçado apenas nos poucos autores e autoras que me arrebatam.
§ Por enquanto, no entanto, minha maior liberdade intelectual é me definir como um intelectual fraco. Como bom brasileiro, com alguma influência da escola da malandragem, me infiltro e dou pitaco, sem me comprometer. O que vale, nesse exercício, é ao menos levantar algumas provocações, as mais elementares, ingênuas, provocações infantis, mas com alguma lucidez e um mínimo de esperteza. Com a consciência tranquila, porque estou ciente de que sou apenas um agitador fragmentário, um frasista panfletário, um haicaísta e ponto. De orelhada, porém, em filosofia e literatura, leio quase tudo. Mas mantenho, agora sim com rigor, minha meia dúzia de escritores e escritoras cativos, meus talismãs da poética e do pensamento.
A farfalhada niusleter é o meio mais livre e satisfatório por onde espalho, na internet, meus escritos fragmentários de muitos temas e tons: dos arranhões filosóficos e políticos baseados, quase sempre, no debate sobre civilização e ecologia, aos meus haicais, haibuns e zuihitsus da vida cotidiana. Alguns dos textos que compartilho aqui estão presentes no meu último livro, um miscelânea fragmentária chamada O clarão das frestas. Atrair inscritos é sempre uma alegria, mas dá trabalho. Se você acompanha e aprecia esta niusleter, e conhece gente que também faria o mesmo, compartilhe, indique.

Abraços e até a farfalhada #96,
Felipe Moreno
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