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7 de Junho de 2026

Fragmentos #01: A memória é, antes de tudo, um trabalho e nada nela pode parar

pais, minas, éguas e sobre escrever

Uma paisagem em tons sépia de uma aldeia aninhada entre colinas, com estruturas proeminentes e caminhos sinuosos, apresentada sobre um fundo avermelhado.
Morro Velho, Marc Ferrez - Acervo IMS

i.

ontem, dormi pensando em algo que não deveria esquecer, e me esqueci. agora me sento aqui, em frente à tela branca, e não tenho o que escrever porque as palavras foram engolidas pelo sono, pelo sonho, pelas batidas do meu pai à porta do quarto quando deu seis da manhã, horário em que ele acorda e vem até o quarto onde durmo conferir quem está ali: se aliado ou inimigo, reconhecido ou incógnita. hoje, fui incógnita desmemoriada.


ii.

a memória é uma aliada e uma assassina do ofício. escrevo porque me lembro e para não me esquecer, “para sentir saudade, para me dizer que tudo valeu a pena e fizemos o que pudemos”, etc. mas nem sempre me lembro e, quando lembro, sinto às vezes vergonha de coisas que me aconteceram e essas quero sepultar antes de se tornarem texto — como se pudesse controlar, pelo ato de escolher histórias, aquilo que sou.

quanto de mim é a memória do que fui? quanto é a lembrança do que posso ser? a resposta a isso é o que importa: entender se entre as palavras que escrevo esconde-se uma sombra de mim ou eu inteiro; se o vazio entre o que narro e o que escolho esconder sou também eu, disfarçado de potência, de um querer ser o que ainda não fui, mas poderei. escrever tem se tornado isso: o exercício de testar minha imagem, de plasmá-la na superfície do texto para ver se pega.


iii.

faz frio em BH e, essa noite, os graus foram tão pouco que chegaram a um único dígito. tem um mês que estou aqui e a data da voltar ao Rio se aproxima, trazendo consigo a alegria por rever meus amigos e a tristeza de deixar meus pais entregues à saudade que sentem (e sabem) e sentem (e não sabem). lidar com a velhice dos pais é um privilégio envelopado no papel pardo da punição.

aquela frase “nenhum pai deveria presenciar a morte de um filho” bem poderia ser o inverso; bem poderiam todos viver indefinidamente e, assim, a vida me deixar em paz, livre das culpas que a distância e a minha demora em processar todas essas coisas carregam. mas o Rio, as praias, o sol quente na minha nuca me animam e convidam a estar longe — e assim, talvez, processar o perto?

tenho falado aos meus amigos próximos que estou dando ao tempo espaço para fazer seu trabalho, tanto na minha permanência quanto na ausência. tenho tentado não apressar as coisas — ficar com calma e partir sem culpa, e demorar nos dois, me enraizando no presente: minha vida, que me leva além; meus pais, que pelo amor e o dever me retornam à terra onde nasci.

como é violento fazer as pazes com a vida.


iv.

quando cheguei aqui, a violência veio até mim encanada. fui atualizado dos acontecimentos recentes, das histórias e destinos de tudo o que importa àqueles que amo, e me contaram do rebuliço equino de dias antes: uma égua tinha caído na tubulação de água que abastece a cidade. achei trágico, cômico e belo — “estamos bebendo água de égua”, me disseram, e guardei comigo a expressão.

no vídeo gravado no momento em que acharam a égua (já sem vida) num dos canos, um homem agradece a Deus por tê-la encontrado. na matéria publicada por um jornal sobre o acontecimento, o dono da égua se irrita: “quero saber se é ela mesmo”.

sigo plenamente hidratado.


uma das regras que criei para me guiar enquanto escrevo essa newsletter diz “sente e escreva o que vier. o que veio é o que viria”. hoje, acho que fui fiel a ela e, por causa disso, acabo aqui.

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  1. G
    Gerânio de Só
    8 de Junho de 2026, manhã

    Muito legal esses fragmentos que você compartilhou, embora trágicos e belos; trágicos e belos.

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