2026-03-01
Paulliny Tort escreveu um romance sobre um clã de neandertais que, dezenas de milhares de anos atrás, trava contato com indivíduos sapiens enquanto luta pela sobrevivência em um território não especificado. O livro se chama Os imortais, está saindo agora em março pela Fósforo, e uma das coisas que adoro nele é que o resumo acima realmente não deixa muita coisa de fora.
O enredo tem protagonistas, designados por apostos como “o Homem”, “a mulher”, “a Velha”, “a menina”. A ação é narrada com profusão de detalhes, em um ritmo paciente que imprime à especulação pré-histórica uma textura objetiva, às vezes quase documental, temperada por alusões às emoções dos neandertais e juízos poéticos sobre o ambiente e as criaturas que o habitam. Há arcos narrativos distinguíveis: a penosa procura pelos cavalos a serem caçados; quando estes finalmente são encontrados, o auto-exílio do Homem que, embalado por cogumelos psicotrópicos, procura se afastar da realidade hominídea e se fundir ao modo de ser equino; as disputas de poder pela posição de guia dentro do clã girando em torno do “pequeno”, um jovem neandertal violento e com inclinações despóticas; as dinâmicas de acolhimento e xenofobia entre as diferentes espécies de gente; a jornada da “menina”, uma bebê sapiens que cresce no clã dos neandertais e se esforça para ser aceita sem abrir mão da própria identidade; e por aí vai. Há drama, conflito e progressão narrativa. Mas argumentarei que o que há de mais especial no livro é outra coisa.
A premissa está embasada no atual conhecimento científico: sabemos com certeza, desde que o paleogeneticista sueco Svante Pääbo extraiu o primeiro DNA legível de um neandertal em 1997, que nossos antepassados sapiens conviveram por milênios com outras espécies de hominídeos, incluindo neandertais e denisovanos, e que eles trocaram genes e cultura. A prevalência evolutiva da nossa espécie deriva de uma história de competição e cooperação, de guerra e de convívio íntimo.
Uma das maiores qualidades do romance está no modo como evoca essa passagem fascinante das nossas origens, evitando os caminhos tentadores da alegoria ou da tragédia, preferindo uma reconstituição sensorial, material e procedimental de um modo de existência que só podemos imaginar a partir de indícios esparsos. Não me parece haver intenção, em Os imortais, de forçar analogias sobre a maldade ou a bondade inatas do ser humano ao longo das eras, ou oferecer chaves ao surgimento e desenvolvimento atual da civilização a partir do que poderiam ter sido as relações e realizações dos nossos antepassados remotos. Não percebo nenhuma sugestão a respeito de um télos da espécie humana.
Em outras palavras, a mim não parecer ser um livro escrito para investigar “aquilo que nos faz humanos” ou algo assim. Na minha leitura, Os imortais é antes de tudo um romance imaginativo, mesmo. Mais do que fatos históricos, questões filosóficas e discussões sociais em torno do seu tema, aposta nos poderes da linguagem escrita para gerar imagens, sensações, emoções e paisagens mentais que colocam o leitor em uma relação predominantemente estética com os episódios narrados. É um romance especulativo, sim, mas o tratamento do espaço, dos personagens e de suas ações é palpável e concreto, dos ferimentos de caça às ferramentas de sílex, de uma formiga esmagada sob o pé à erupção de um vulcão. A trama é uma canoa no rio da contingência: eventos se repetem, planos se desfazem mediante fatos inesperados, desenlaces dramáticos brotam em momentos de pasmaceira. Numerosas passagens se detêm no preparo de ferramentas ou alimentos, em assembleias sobre o rumo a seguir, em trocas de olhares e gestos comunicativos, na observação de detalhes naturais.
Longe de resultar em um relato enfadonho, a sensação é a de ver o mito nascendo da vida comum, da sobrevivência cotidiana dos personagens. Guardadas as diferenças epistemológicas, o mundo deles tem a mesma proporção de enfados e encantos, de mistérios e terrores, que o nosso. A mesma balança de sentido e falta de sentido.
A narração em Os imortais enfrenta bem o dilema de como narrar com linguagem contemporânea a experiência de semelhantes que viviam em mundo tão diferente do atual. Os neandertais conversam entre si em discurso indireto, e cabe ao leitor presumir que tipo de vocabulário teriam. O narrador se detém ora no grupo, ora no foco do protagonista daquele capítulo, ora em outros personagens ou criaturas que participam da cena. A linguagem usada se atém ao concreto, mas não teme recorrer a metáforas afeitas a um intelecto moderno caso isso sirva para nos comunicar a introspecção de um personagem ou pintar algo de ominoso ou sublime na contemplação do cenário. Vejamos um trecho:
Embora ninguém saiba contar, são doze cavalos. São doze inacreditáveis cavalos. Sob o caimento das crinas, no extremo de seus longos focinhos, as narinas se abrem e fecham, soprando colunas de vapor. Os olhos grandes, redondos, piscam sem pressa, enquanto os lábios macios beliscam os juncos. A menina se impressiona muito. O calibre das veias que os riscam sob o couro, as caudas que giram, tudo em cada cavalo parece trabalhado à perfeição, nada é vulgar ou inacabado. Nem parecem desse mundo, mas seres melhores, talvez mais puros, bondosos. De repente, eles param de mastigar e olham para as ramagens, apurando as orelhas pontudas. A menina vê um potro de perninhas finas e desajeitadas — ela não sabe, mas, exceto esse filhote, há só mais um macho na manada, já meio velho. A matriarca é quem primeiro patinha de ré, sugerindo que as outras também saiam da lama. E os caçadores correm brandindo suas armas.
O foco aqui é na menina, é ela quem vê os lábios macios dos cavalos, o calibre grosso de suas veias; mas, para apreciar a perfeição desses seres aos olhos da menina, o narrador lhe dà as mãos: são juntos que enxergam sua pureza e bondade em relação a todas as outras coisas desse mundo. O narrador informa o leitor daquilo que os neandertais não sabem: “embora ninguém saiba contar, são doze cavalos”, “ela não sabe, mas, exceto esse filhote, há só mais um macho na manada, já meio velho.” E a cena irrompe de repente em ação panorâmica, os caçadores correm brandindo as armas. Assim avança a narrativa, até seu desfecho memorável. A autora conta uma história, mas quer sobretudo que estejamos mesmo lá. Tanto melhor se pensarmos sobre a sociedade, a civilização ou nossas próprias vidas.
Em Maneiras de ser, James Bridle dedica um capítulo a contar a história dos encontros e trocas entre nossos antepassados sapiens, neandertais e denisovanos. Em uma bela passagem, evoca a estranheza que sentimos, hoje, ao encarar um grande símio: “a estranheza profunda de reconhecer uma expressão de consciência, inteligência e até mesmo parentesco nos olhos de outra espécie.” Ele então imagina os sapiens, ou seja, nós, sentindo a mesma estranheza ao topar com neandertais e denisovanos. “Será que os tratamos mais como colonizados, como sub-humanos, escravizados ou coisa pior, assim como seus descendentes europeus tratariam tanta gente muito tempo depois? Ou será que praticamos compaixão, empatia, amor e solidariedade nos invernos glaciais do Pleitoceno?” Bridle comenta que descobertas a respeito da direção do fluxo genético poderiam nos ajudar a pintar esse quadro. Essas descobertas estão aparecendo, e a mais recente indica que a união prevalente era a de homens neandertais com mulheres sapiens, o contrário do que se esperaria em uma narrativa de vencedores vs. vencidos na qual o sapiens se saiu vitorioso.
Em O despertar de tudo, tratando da história mais recente do surgimento das cidades, da agricultura e do Estado, David Graeber e David Wengrow descontroem o mito de que nossos ancestrais caçadores-coletores formavam pequenos clãs igualitários e inocentes, posteriormente corrompidos pela invenção da agricultura e da propriedade privada. Os caçadores-coletores foram grandes experimentadores de formas de convívio, subsistência e organização social, e praticaram formas de liberdade e soberania que se perderam em grande medida no engessamento da civilização moderna. O papel das mulheres no governo, na religão e nos rituais, na formação de cidades e nas práticas agrícolas foi tremendamente negligenciado pelas teorias mais influentes.
Tudo isso é incrivelmente importante e fascinante, mas talvez a literatura possa fazer mais do que qualquer estudo para responder à pergunta de Bridle sobre como as diferentes gentes da nossa ancestralidade pré-histórica podem ter se tratado. Um tanto como humanos, decerto. Com assassinato e amor, curiosidade e medo, desejo e ódio; com pactos provisórios, vinganças, reparações; com a certeza de um destino comum ou a mais insolúvel incompreensão. O livro de Paulliny nos oferece uma visão possível desse cenário, em uma narrativa ciente de que há perguntas melhor respondidas nos domínios da fabulação literária, essa forma moderna de sonho compartilhado.
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