punk rock progressivo agora é só rock n' roll, but I like it
pré-história
em uma vida passada eu pedia pra colocar Forgotten Boys na academia. uma academia no porão, chamada Porão, com pouca gente, pouca luz e aparelhos montados artesanalmente pelo próprio professor.
definitivamente, o melhor ambiente pra fazer musculação. academia com neon e vibe de balada alguma jamais vai bater. mas, no Porão, Forgotten Boys era só um acionável naquele streaming de música (que mal remunera artista e rende grana pra investir em bombardeio na Palestina). eu queria ao vivo.
tempo presente
vim pra essa cidade pra isso. pra botar o pé na rua de noite e conseguir chegar nos shows dos quais só ficava vendo flyer na rede social (que era de foto, virou de conteúdo efêmero e hoje quer ser de vídeo) e pensando "poxa, se tivesse em São Paulo ia ver esse show". a cidade é gigante, as coisas não são tão simples, mas cá estamos - e no show estive.
pra quem lembra de formações anteriores, o FB de hoje é mais despretensioso. e, assim, permanece ótimo pra quem gosta de rock de guitarra. nos tempos de "Stand by the D.A.N.C.E.", eu os via como um "Ramones progressivo": a palhetada reta nos powerchords estava ali, a velocidade, o punch. mas também tinha uma segunda guitarra fraseando eventualmente, momentos mais lentos e um monstro na bateria que esbanjava diferentes dinâmicas sem perder peso, o batera Flávio Cavichioli - dos instrumentistas que mais curto na música.
atualmente quem segura as baquetas é o Chuck Hipolitto - que foi batera do FB, se não me engano, antes do Flávio, e posteriormente segundo guitarrista e vocalista. a coisa hoje é menos locomotiva e mais glam, beats mais espaçados, linhas minimalistas em alguns trechos. é diferente da fase mais conhecida da banda, uma roupagem ao vivo descontraída, no ponto de um rock feito sem pretensões megalomaníacas.
e nada faz mais sentido que um grupo de quase três décadas mudar - até que nem tanto - de integrantes, de sonoridade. o show mais recente, no Fenda, em São Paulo, mostrou uma banda dona de si. os caras sabem o que gostam de ouvir, sabem como querem soar, riem entre as músicas e conversam com uma plateia de cena clássica: um bar pequeno, todo mundo meio apertado assistindo o show, som no talo - até onde a lei do Psiu e a GCM permitem.
na ocasião, passaram por músicas do álbum mais recente, "Click Clack", mas também de toda a carreira - teve até "I Cry", do primeiro álbum! em um set curto, mostraram o quanto já beberam de influências como New York Dolls, os já citados Ramones, mas também de Rolling Stones - talvez a adição mais presente na sonoridade da última década e meia de banda - e MC5, que apareceu explicitamente com a versão de "Kick Out the Jams" no bis.
um show bom, divertido e energizante pra quem gosta de guitarras, timbre de cabeçote Orange, gente feliz com ceva na mão e que sabe que rock é só isso, mas é tudo isso. fui feliz vendo o Forgotten Boys no Fenda como fui feliz num distante Gig Rock no frio de Porto Alegre em 2006. com certeza mais feliz que em 2012 em Cachoeirinha, também no RS, quando eles tinham uma big band legal, mas um batera que não entendia que não basta peso, é preciso também groove.
e, como hoje somos velhos e queremos viver, às 21h57 o som tinha acabado, todo mundo foi aproveitar a área externa do bar, parte da banda foi desmontar os equipos com semblante sóbrio. por mais shows assim, tanto na organização quanto no conteúdo. o roqueiro meio-velho e usuário do transporte público agradece.
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Pior que lembro quando eles estiveram na cidade que foi planejanda para fazer o cidadão de Gravataí passar raiva, grande show!
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