Newsletter BaixaCultura #78: Que fim deram os comuns digitais?

Buenas,
Não quero ter que defender o copyright para ir contra à Open IA. Essa é uma frase que já falei diversas vezes em eventos, aulas e em conversas com amigos quando quero expressar minha opinião sobre o tema dos direitos autorais e às IAs Generativas, assunto que tem sido um dos mais falados dos últimos anos na cultura digital. Quem conhece o BaixaCultura sabe que sempre fomos contra o copyright, usamos e endossamos o copyleft, pois acreditamos que a propriedade intelectual favorece muito mais, e desde seus princípios (como escrevi no “A Cultura é Livre”), os intermediários e não quem cria. A propriedade intelectual, na prática, foi, e continua sendo, mais um mecanismo de captura e escassez artificial operado por quem distribui do que um mecanismo de proteção de quem cria.
Como também é bastante sabido, denunciamos os abusos das plataformas e o “engolimento” completo da internet por parte dos sistemas de IA generativa (não só o ChatGPT, mas Claude, Gemini, Deeep Seek…) sem nenhum tipo de favorecimento (e às vezes nem menção) às pessoas criadores. Também já dissemos que, sem os dados (e as tecnologias) produzidos pelas pessoas, não haveria IAG como a gente conhece hoje. Nada desse maravilhamento ingênuo que quer inserir IA em qualquer processo digital hoje seria possível sem a produção coletiva, sistemática e massiva de “conteúdos” (textos, imagens, sons, vídeos, etc) pelas pessoas. Mas, diante desse cenário, o que fazer? É possível denunciar e agir contra as big techs de IA generativa sem defender a propriedade intelectual e sem criar mecanismos que, a pretexto de proteger autores, acabam fortalecendo justamente quem sempre os explorou?
Acredito que sim. Primeiro porque o copyright não é mais o inimigo principal, e portanto nem a solução para esse entrave entre autores X empresas. Não é o inimigo principal porque, num cenário em que o poder real está concentrado em meia dúzia de empresas que controlam infraestrutura computacional, dados e modelos, as batalhas de propriedade intelectual se tornaram secundárias na disputa, insuficiente para enfrentar o que efetivamente está em jogo.
E não é a solução porque fechar tudo em um copyright seria entregar o terreno a quem já tem poder de negociação - que novamente não serão os artistas, mas as grandes gravadoras, editoras, estúdios, etc. Como escreveu Cory Doctorow nesse texto que traduzimos, “só porque você está do lado deles, não significa que eles estejam do seu lado”. “Os trabalhadores criativos – escritores, cineastas, fotógrafos, ilustradores, pintores e músicos – não estão do mesmo lado que as gravadoras, agências, estúdios e editoras que colocam nosso trabalho no mercado. Essas empresas não são instituições de caridade; elas são motivadas a maximizar os lucros e uma maneira importante de fazer isso é reduzir os custos, inclusive e principalmente o custo de nos pagar pelo nosso trabalho”.
Toda vez que a discussão sobre IA generativa é reduzida a "treinamento viola copyright, logo é preciso ampliar o copyright", quem sai ganhando não são os criadores: são os mesmos intermediários que o BaixaCultura critica há mais de uma década, agora travestidos de defensores da autoria para negociar acordos bilionários de licenciamento de catálogo com as big techs - acordos dos quais os artistas dificilmente serão justos para os autores. Podemos ter um cenário de cultura ainda mais fechada, criadores igualmente precarizados, e o poder concentrado nas mesmas mãos de sempre, só que agora com mais uma camada de captura no topo.
Recusar o copyright como resposta não significa, porém, fingir que não há problema. Não podemos ignorar o problema real de que a IA está ferindo gravemente a infraestrutura que produz o conhecimento aberto. A Wikimedia, por exemplo, já sente o peso: bots de IA impõem cargas massivas na infraestrutura, consomem o trabalho editorial coletivo sem atribuição, sem encaminhar usuários de volta, sem contribuir financeiramente. É uma relação vampírica, usando a imagem de Molly White nesse texto “Wait, not like that”, em que o extrator compromete sua própria fonte de sustento no médio prazo, e de quebra corrói o trabalho voluntário que torna os comuns possíveis.
A reação imediata que o copyright e seus defensores propõe é fechar licenças, erguer paywalls, migrar para plataformas muradas - ou simplesmente parar de publicar (na rede). O problema é que esse movimento defensivo corre o risco de destruir os próprios comuns que se quer proteger, enquanto as big techs continuam raspando tudo de qualquer jeito, inclusive conteúdo com todos os direitos reservados, como processos judiciais em curso já demonstram. Fechar a porta da frente não impede quem entra pela janela; apenas impede quem vinha pela porta com boas intenções: professores, pesquisadores, estudantes, jornalistas, movimentos sociais.
Essa encruzilhada revela aquilo que a Mozilla Foundation e outras iniciativas têm nomeado como a "falsa escolha" imposta às comunidades: abrir seus dados e correr o risco de exploração extrativa, ou fechá-los e ser excluídas da possibilidade de moldar os sistemas de IA que já as afetam de todo jeito. É uma armadilha construída e historicamente familiar para quem vem da tradição da cultura livre latino-americana e no Sul Global. A mesma lógica que privatizou sementes, saberes tradicionais e patrimônio genético se reapresenta agora sob o nome de "dados de treinamento". Ou você partilha (e vira matéria-prima extraída sem compensação), ou você fecha (e assiste a disputa sobre o próprio conhecimento ser decidida por outros, longe de você).
O que penso ser necessário entender é que copyright (direitos autorais) não é, e cada vez menos será, o instrumento adequado para resolver esse problema. Como argumenta Sarah Pearson em texto recente no blog do Creative Commons, a fraqueza do direito autoral diante da reutilização por máquinas é estrutural e, em certa medida, por design: as licenças CC foram pensadas justamente para não restringir usos que o copyright já permitia. Restringir a licença, portanto, não só não resolve como fortalece a lógica de que só quem tem poder de negociação individual (grandes editoras, estúdios, detentores de catálogos) pode sentar à mesa. O pequeno criador, o coletivo, a biblioteca comunitária, a universidade pública do Sul Global continuam de fora. Ao transformar o debate numa disputa de propriedade intelectual, abandonamos o terreno ético e político mais amplo — aquele em que a cultura livre sempre se moveu melhor — e entregamos a discussão a advogados corporativos.
A saída, então, não está em fechar os comuns, mas em reconstruí-los com guardrails que protejam sua reciprocidade. Embora essa seja claramente uma saída difícil sem respostas prontas, esse é o tema que pretendo abordar no seminário “IA e Capitalismo de Vigilância no, pelo e a partir do Sul Global”, no próximo dia 15 de abril, no Coletivo Digital, em São Paulo, na fala chamada “Cultura e conhecimento livre na era da IA: o que resta dos comuns digitais?” (veja agenda aqui mais abaixo). Estou escrevendo um texto para essa fala que depois vai virar um post no BaixaCultura – e vocês, leitores da newsletter, leram antes aqui uma parte desse texto nos parágrafos anteriores a este.
Newsletter que demorou quatro meses pra vir, mas veio tão recheada de texto que melhor encerrar aqui pra deixar vocês lerem com atenção o que se segue.
Leonardo Foletto
São Paulo, 11/4/2026

VIDA SEM BIG TECH II
2No dia 21 de março de 2026, o Laboratório de Experimentações Tecnopolíticas da Coalizão Direitos na Rede (da qual fazemos parte) realizou a segunda edição da oficina Vida Sem Big Techs, na sede do Intervozes, em São Paulo. A manhã foi dedicada a uma conversa com Silvio Rhatto sobre a história e os caminhos práticos da auto-hospedagem e da infraestrutura autogestionada; baseado nesse texto, Rhatto discorreu sobre sua experiência de duas décadas montando servidores e trouxe alguns bons conselhos sobre como e porquê auto-hospedar seus arquivos em pleno 2026 assolado de IAs e Big Techs.
À tarde, trabalhamos coletivamente no servidor Sub_Galeano, a "mucua" nascida na primeira edição e mantida em gestão coletiva desde então. A oficina é parte do projeto ExLab e foi oferecida também como atividade de extensão pela Unifesp. Quem perdeu pode acompanhar as próximas edições pelo site do ExLab.

TOCAIA POR AÍ
Realizamos um Encontros Tocaia na sede da SobInfluencia, na Galeria Metrópole, centro de São Paulo, no dia dia 20/03, Foi uma conversa aberta para pensar os tremores do nosso presente: o que significa hoje a forma política de uma prática radical? como sustentar um estudo coletivo, clandestino, desalinhado, antagonista e que seja também uma forma de vida?
A conversa é uma extensão dos debates propostos pela revista impressa e teve a participação de Acácio Augusto, Jean Tible, Bru Ferreira e Caio Netto. Entre outros temas, guardei umas falas de Acácio: “como sustentar um espírito coletivo, clandestino, desalinhado, antagonista, e que seja também uma forma de vida? Justamente: não dar uma forma política a uma prática radical é apostá-la como uma forma de vida, em que a prática radical não é uma excepcionalidade. Esse estudo coletivo clandestino precisa, primeiro, sempre ser feito à maneira de um diagnóstico — e não de um receituário, nem de uma profilaxia. Como qualquer pessoa que já fez uma consulta médica sabe, um diagnóstico é sempre provisório. Segundo, esse estudo/diagnóstico precisa ter sempre forma paródica, ou seja, mostrar o ridículo das solenidades. A gente precisa insistir — para dar um exemplo muito caricato — que o Trump é ridículo, que o Bolsonaro é ridículo. A gente precisa ser capaz de produzir um pensamento que, diante do soberano como bufão, parodie esse soberano.
Terceiro e último: o tipo de pesquisa que invista de forma demolidora na verdade estabelecida, a favor de reintroduzir o discurso no campo da luta — ou seja, tudo aquilo que parece pacificado, que o direito já abençoou, precisa ser agitado por essa pesquisa. É preciso apontar: olha, aqui, onde parece haver um acordo, no fundo há uma luta reencenada. A forma que proponho — no sentido de que compartilho com as pessoas — seria o que gosto de chamar de uma antipolítica da abolição. Ou seja, o mundo não está precisando de novas coisas, nem de novos programas, nem de novas ideologias. A gente precisa operar num processo de desativação dos dispositivos, num processo de subtração. E se eu fosse tomar como exemplo a frase dos anarquistas gregos de 2008 em Atenas — "Nós somos uma imagem do futuro" —, eu diria que a imagem do futuro é a subtração. É isso: trabalhar na abolição disciplinada dos dispositivos.”
Por falar em Tocaia, de dezembro (lançamento da revista) até abril, tivemos mais alguns textos publicados somente online. O primeiro, de Allan de Campos, parte do bloqueio ao terminal da Cargill em Santarém pelos povos do baixo Tapajós para construir uma análise estrutural do agronegócio da soja: seus oligopólios transnacionais, seu financiamento público pelo BNDES, e os seus impactos sanitários devastadores — da contaminação por agrotóxicos às malformações congênitas, da dengue resistente à destruição dos territórios indígenas. O texto recusa o enquadramento da luta indígena como "excepcionalidade" e propõe entender a cosmopolítica dos povos do rio como materialismo radicalmente vivo, capaz de nomear o inimigo com mais precisão do que muita teoria urbana consegue.
O segundo texto, de Paul B. Preciado (publicado no Libération e traduzido para o Tocaia), e o terceiro, de Alana Moraes, se articulam de forma complementar em torno de uma pergunta urgente: de onde vem a aceleração que desorienta o presente e quais formas de resistência ela exige? Preciado rastreia a metodologia da aceleração nos textos de Nick Land e mostra como o aceleracionismo niilista de Land, passando pelo "Iluminismo Sombrio" e pelo hiper-racismo, tornou-se a filosofia prática de Trump, Vance, Musk e Bannon.
No terceiro texto, Alana Moraes, por sua vez, recusa o "pensamento crítico" como nova lança heróica e propõe outra forma de fazer política: a da bolsa e do cesto, das histórias coletivas, das tramas multiespécie — das mães que perdem filhos ao zapatismo, da Revolução Haitiana aos metalúrgicos do ABC. Contra as ficções do sujeito universal e da totalidade revolucionária, ela aposta nas autonomias que se tramam no chão dos territórios: “O que a luta dos povos e de todas as dissidências nos ensinam é que não há nada mais anti-revolucionário e conservador do que a reivindicação pela totalidade e suas instâncias de organização. Proclamar a vitória de “um só mundo” contra todos os outros é justamente o que tem feito o consórcio Estado-Capital, uma movimentação que só pode prosperar, entretanto, a partir de seu arsenal racial-colonial. Quem diz “um só mundo” precisa também dizer qual o mundo que realmente vale e quais os outros que precisam deixar de existir”.

VALE A PENA LER
Transformando nossa seção “Estamos lendo” em um “Vale a pena ler”, porque entre começar a escrever essa news e terminar, acabamos terminando o que estávamos lendo.
_ Traduções de Nick Land, por Fabrício Silveira
O pesquisador gaúcho Fabrício Silveira (autor do livro O Exterminador do Futuro: Mídia, horror e política em Nick Land ) vem publicando sistematicamente em seu Medium traduções dos principais textos de Nick Land para o português. Land, como se sabe, é a referência filosófica central do movimento neorreacionário que embasa partes do trumpismo tecnológico, e quase nada de sua obra estava disponível em português.
Três textos recentemente traduzidos por Silveira permitem entender o núcleo duro da Neorreação: A ideia da Neorreação (de junho de 2013) formula o conceito de "catraca degenerativa" — a ideia de que o progressismo instala mecanismos irreversíveis de deterioração e que qualquer reversão simples é impossível, pois "a saída não pode ser a entrada". Não há caminho de volta (de abril de 2014) condensa esse argumento numa só imagem: a da restauração malsucedida do Ecce Homo de Elías García Martínez, usada por Land para ridicularizar qualquer tentativa de "restauração" política; Reaceleracionismo (também de 2014) retoma a distinção entre aceleracionismo de direita e de esquerda — Land acusa o segundo de querer usar a velocidade sem aceitar o colapso que ela implica.
Lidos em conjunto, esses textos mostram a arquitetura de um pensamento que é simultaneamente sofisticado e perigoso. Land é um filósofo torto que elaborou, com rigor conceitual, uma justificativa para o colapso das instituições democráticas como condição evolutiva. Entender Land, voltamos a dizer aqui, é uma tarefa política e necessária para os tempos de hoje. Silveira, que é pesquisador em Comunicação e vem há anos mapeando esse terreno, oferece ao leitor brasileiro acesso a materiais antes inacessíveis, com notas críticas que contextualizam o que se lê. O projeto de tradução é complementado por outros textos em seu Medium, incluindo a tradução da matéria da New Yorker que perfila o retorno de Land ao mainstream do Vale do Silício; a crítica de Mikey Downs à obra de Land (“A tese fundamental de Nick Land é que o capitalismo é inteligência artificial”); e textos de outros autores no campo neorreacionário, como o russo Alexander Dugin, “filósofo de Putin” e Peter Thiel, além de alguns nomes ligados ao aceleracionismo, como Reza Negarestani. Bem vindos ao campo minado.
_ O dia que Mark Fisher destruiu seu mentor" (Jacobin Brasil)
Publicado em 13 de janeiro de 2026 — data que marca o aniversário da morte de Fisher em 2017 —, o texto da Jacobin Brasil traz a tradução de Terminator vs Avatar, ensaio em que o filósofo britânico desmonta de forma cirúrgica o pensamento de Nick Land, seu ex-mentor e hoje uma das referências intelectuais do movimento neorreacionário trumpista. O texto foi publicado originalmente em 2014 na coletânea #Accelerate e permanece como uma das críticas mais certeiras ao aceleracionismo de direita: mostra como o niilismo de Land, que flertava com o marxismo dos fluxos e da desterritorialização, desembocou em um elogio sem mediações à destruição capitalista. No ensaio, Fisher propõe distinguir o aceleracionismo de esquerda — que ele ainda sustentava, com reservas — do niilismo tecnocapitalista de Land. O ponto central da crítica é a análise do livro Economia Libidinal, de Lyotard, e da afirmação de que os operários britânicos "gostavam" do sofrimento industrial. Para Fisher, esse argumento revela uma filosofia da submissão: ao confundir os fluxos de desejo com os vetores do capital, Land abandona qualquer horizonte de transformação e transforma a aceleração em fim em si mesmo. Fisher chama isso de "capitalismo cibernético sem rosto", um sistema que não precisa mais de sujeito, de classe, de política, apenas de velocidade e de colapso. Land não é apenas um “desvio intelectual”, mas um sintoma do que acontece quando a teoria perde o fio que a conecta à vida coletiva.
O que torna o texto ainda mais valioso hoje é a clareza com que Fisher identifica a estrutura do problema antes que ela se tornasse mainstream. Escrever em 2014 sobre Land como precursor do movimento neorreacionário, da aliança entre capitalismo extrativista e autoritarismo digital, era fazer diagnóstico com décadas de antecedência. Lido em 2026, o texto é mais um daqueles que tem um tom profético: o mentor que Fisher "destruiu" intelectualmente é hoje citado por Marc Andreessen como seu filósofo favorito e circula nos corredores do Vale do Silício como filósofo da singularidade.
Como já deu (e vai dar ainda mais a seguir) pra sacar nessa newsletter, a leitura cruzada de Fisher e Land é uma das formas mais honestas de entender o que está em jogo na tecnopolítica contemporânea.
_ "O socialismo após a IA" (Jacobin Brasil / Blog da Boitempo)
Em dezembro de 2025, a Jacobin Brasil publicou este ensaio de Evgeny Morozov, republicado pela Boitempo em 2026, que vai além da crítica habitual às big techs. Morozov questiona diretamente a tradição socialista: seria possível simplesmente "reaproveitar" as tecnologias do capitalismo — incluindo a IA — em um projeto de emancipação? Ou a tecnologia carrega em si os valores e desejos do contexto que a gerou? Dialogando com Aaron Benanav, o autor defende que o socialismo precisa ser capaz de oferecer não apenas distribuição mais justa do que o capital produziu, mas uma forma de vida distinta. Algo que realmente valha desejar.
Para sustentar o argumento, Morozov examina a proposta de Aaron Benanav de uma "economia multicriterial" pós-capitalista — e encontra ali, apesar da sofisticação, o mesmo pressuposto que critica: a de que os fracassos históricos do socialismo foram falhas de procedimento, solucionáveis com mais democracia e melhores critérios. Mas se a IA, como Morozov argumenta, não é uma ferramenta neutra que pode ser simplesmente redirecionada — se ela cristaliza, em sua própria arquitetura, os valores e os desejos do capitalismo que a gerou —, então não basta reformar as instituições: é preciso repensar o que queremos produzir, como queremos viver e quais tecnologias são compatíveis com isso. O socialismo, nessa leitura, não pode ser apenas capitalismo com painéis de controle mais sofisticados.
O texto não traz respostas fáceis. Morozov diz que a tradição de esquerda tem sido tímida ao questionar as tecnologias que promete apenas redistribuir. Em um momento em que a narrativa dominante sobre IA oscila entre o entusiasmo de quem quer acelerá-la e o reformismo de quem quer regulá-la, a pergunta de Morozov — que forma de vida essa tecnologia produz? — é a que mais importa e a que menos se ouve. Ele afirma: “Um socialismo digno da IA não pode retroceder a uma divisão de trabalho simples, na qual a política decide e a tecnologia provê. Ele precisa reconhecer a tecnologia como um espaço primordial de autoformação coletiva. A questão não é abandonar a composição democrática de critérios, nem romantizar o caos. Trata-se de construir instituições que tratem a existência coletiva como um campo de luta e experimentação — um campo onde novos valores, novas habilidades e novas formas de viver estão constantemente se moldando.
Isso significa aceitar a impureza não apenas como um princípio de design, mas como uma condição existencial. Em vez de imaginar uma economia perfeitamente funcional complementada por um Setor Livre isolado, precisamos de arranjos permeáveis nos quais experimentos circulem entre as esferas, às vezes colidindo com as métricas oficiais, às vezes reformulando-as. As instituições não apenas equilibrariam os critérios; elas deixariam espaço para projetos rebeldes que ainda não se encaixam em nenhuma métrica reconhecida e que talvez nunca se encaixem”.

ENTREVERO TECNOPOLÍTICO
Ainda em janeiro de 2026, a NVIDIA foi acusada em processo coletivo de ter contactado diretamente a biblioteca pirata Anna's Archive para obter acesso de alta velocidade a milhões de livros protegidos por direitos autorais, visando treinar seus modelos de IA. Documentos internos revelados mostram que executivos da NVIDIA teriam autorizado o uso desses materiais mesmo após a Anna's Archive alertá-los sobre a natureza ilegal das coleções. A empresa teria recebido acesso a cerca de 500 terabytes de dados, incluindo milhões de livros do Books3, LibGen, Sci-Hub e Z-Library. Os autores que movem a ação alegam que a NVIDIA não apenas usou conteúdo pirateado para treinar seus próprios modelos como NeMo e Retro-48B, mas também distribuiu ferramentas que permitiam que seus clientes corporativos baixassem automaticamente esses mesmos conjuntos de dados pirateados, gerando receita a partir dessa facilitação.
Também em janeiro de 2026, a Anthropic firmou acordos bilionários com grandes editoras norte-americanas para licenciar conteúdo usado no treinamento de seus modelos de linguagem. O Núcleo Jornalismo investigou as consequências desse movimento para o mercado editorial brasileiro: enquanto grupos internacionais negociam diretamente com as big techs, editoras independentes e nacionais ficam sem representação e sem compensação, evidenciando algo um tanto óbvio: o atual modelo de desenvolvimento da IA aprofunda assimetrias já existentes entre o Norte Global e países periféricos, inclusive no campo da propriedade intelectual e da diversidade cultural.
A partir de um documento vazado com 1.659 páginas de URLs, o We Distribute investigou se a Meta estaria usando conteúdo do Fediverso para treinar seus modelos de IA, ignorando inclusive as diretrizes dos arquivos robots.txt. A Meta negou, mas dado o histórico da empresa… O episódio também acende um alerta importante: a natureza federada e pública do Fediverso o torna vulnerável a esse tipo de extração, e mesmo instâncias não diretamente raspadas podem ter seu conteúdo capturado através de cópias federadas em outros servidores.
O texto do We Distribute também mapeia medidas práticas que administradores podem adotar para proteger suas instâncias, como por exemplo, ter um Termo de Serviço para sua instância que mencione explicitamente a coleta de dados (scrapping) para fins de coleta de dados e treinamento de LLMs - ao menos estabelece um precedente e um rastro documental sobre as expectativas e o consentimento da sua própria comunidade de servidores; Configurar um Firewall para bloquear tráfego de IA (como o Anubis); e usar “Bombas-Zip”; no lado do servidor, use uma configuração do Nginx ou Apache para detectar agentes de usuário (User Agents) específicos associados a IA e sirva para eles arquivos compactados que se expandem indefinidamente, a fim de retardá-los.
Por falar em Fediverso. o professor e pesquisasdor J.J. Sylvia IV relatou em post no portal do Social Media Alternatives, no início deste 2026, sua experiência ensinando Mastodon em um curso de ética de mídias sociais na Fitchburg State University (universidade pública de Massachussets, EUA) criando uma instância específica para a turma. Os estudantes notaram que, embora o Mastodon ofereça promessas éticas superiores de maior agência do usuário, redução da exploração de dados e governança descentralizada, essas vantagens são inseparáveis do trabalho que exigem: aprender normas de federação, construir redes significativas sem assistência algorítmica e participar de atividades de governança e moderação. A principal queixa dos alunos foi a dificuldade de construir uma rede sem algoritmos de recomendação, sentindo-se perdidos sem produzir algo que não seja “imediatamente” engajador. O experimento revela, segundo J.J. Sylvia, uma questão importante na adoção de redes alternativas (ou federadas): elas exigem um nível de participação cívica similar ao necessário para viver em uma democracia. O que significica dizer que elas necessitam de uma contribuição ativa dos usuários, não apenas um consumo passivo como costuma ocorrer nas rees sociais proprietárias mediadas por algoritmos.
A OpenRouter publicou um estudo bem amplo analisando 100 trilhões de tokens de interações reais com LLMs, revelando algumas questões interessantes. Como por exemplo: modelos de código aberto agora representam aproximadamente um terço do uso total, com crescimento consistente impulsionado por lançamentos como DeepSeek V3 e modelos chineses de IA. O estudo identifica dois casos de uso dominantes: roleplay criativo (mais de 50% do uso de modelos open source) e assistência de programação. O estudo também documenta a ascensão da "inferência agêntica", com o uso de modelos de raciocínio agora excedendo 50% do tráfego total e comprimentos médios de prompt aumentando quatro vezes, refletindo cargas de trabalho cada vez mais complexas e baseadas em contexto.
Digital Tribulations é uma série de entrevistas sobre soberania digital na América Latina publicada pelo Institute of Network Cultures, escrita por Gianmarco Cristofari. O primeiro texto da série apresenta o projeto e seu recorte situado no Sul Global; o quinto episódio traz uma entrevista com Roseli Figaro (USP) sobre trabalho comunicacional e dependência tecnológica no Brasil. No episódio mais recente (nº 15), Paola Ricaurte Quijano analisa os limites da soberania digital mexicana: enquanto o governo de Claudia Sheinbaum avança com iniciativas como o supercomputador Coatlicue, as alianças continuam sendo feitas com corporações dos EUA, e a tensão entre o projeto nacional e a autonomia das comunidades indígenas permanece sem solução.
Por falar em INC, Geert Lovink deu uma entrevista ao pesquisador Enrico de Angelis em que apresenta as teses centrais de seu novo livro Platform Brutality (Valiz, 2025). Para Lovink, as plataformas digitais deixaram de ser espaços ambíguos e passaram a exercer violência estrutural — invisível, indireta, mas concreta: na exclusão algorítmica, na normalização do dano psíquico, no uso de bases de dados para perseguição de dissidentes e migrantes. Diante da adicção generalizada e da falência das estratégias individuais de saída, o teórico holandês defende a criação de "laboratórios de vibe radicais", ferramentas coletivas e espaços físicos de experimentação — uma resistência que aposta no coletivo e na imaginação política, não no detox pessoal.
O Institute of Network Cultures (INC), aliás, fundado por Geert Lovink há 22 anos dentro da HvA (politécnica de Amsterdam), realizará seu festival de encerramento como instituição acadêmica vinculada, e o início de uma nova fase autônoma. O INC Exit Fest acontece nos dias 24, 25 e 26 de junho de 2026 no espaço cultural OT301, em Amsterdam, com conferências, feirinha de livros, performances ao vivo e festa. O evento marca também a aposentadoria compulsória de Lovink aos 67 anos, e a decisão coletiva da equipe de não se deixar absorver por uma agenda de "ética da IA" que enterraria o legado crítico do instituto. Vale acompanhar de longe — e quem for comparecer nos avisa!

Para fazer nosso trabalho de discussão, propagação e documentação em cultura livre, (contra) cultura digital e tecnopolítica no BaixaCultura continuar, seguimos com a campanha para buscar recursos para manter o site. Você pode nos apoiar a partir de R$5 mensais em https://apoia.se/baixacultura e, além de contribuir para a continuidade, pode receber recompensas diversas. Dá também para doar qualquer quantia, a qualquer momento, via PIX: info@baixacultura.org

AGENDA
_ A CryptoRave chega à sua 10ª edição nos dias 8 e 9 de maio de 2026, na Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação, 94, centro de São Paulo). Gratuita e aberta, a CR reúne em 24 horas atividades sobre segurança, criptografia, privacidade, hacking e liberdade na rede — além de festa. Esta edição bateu recorde de submissões, com 194 atividades inscritas. Nos encontramos por lá!
_ O Projeto OPlanoB, em parceria com o Labjor/Unicamp, a LAVITS, o Coletivo Digital e o Outras Palavras,realiza no dia 15 de abril, a partir das 14h, um seminário presencial no Coletivo Digital (Luís Murat, 298, Pinheiros, SP) chamado “IA e Capitalismo de Vigilância no, pelo e a partir do Sul Global” . O evento reúne nomes como Rodolfo Avelino, Rafael Evangelista, Sérgio Amadeu, Leonardo Foletto, Beá Tibiriçá e Antônio Martins para discutir IA, capitalismo de vigilância e soberania digital a partir da perspectiva do Sul Global — com oficina sobre jornalismo científico e comunicação engajada. Inscrições abertas no site.
_ O Error 417 Expectation Failed lançou uma chamada para projetos artísticos que recusem a nostalgia ingênua pela "velha internet" e enfrentem de frente a política da memória da rede. A pergunta central: a internet estava quebrada desde sempre, ou houve algo a perder? Com bolsas entre €1.500 e €7.000, a chamada é aberta a artistas, curadores e coletivos de todo o mundo. O júri inclui Chia Amisola, Olia Lialina, Peter Sunde e Vladan Joler. Prazo de submissão: 4 de maio de 2026. Entrega das obras: 30 de outubro de 2026.
_ A Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS) retorna ao Rio de Janeiro para seu VII Simpósio Internacional, de 26 a 28 de agosto de 2026, com o tema "Tramar o presente: tecnopolíticas dissidentes e ecologias do Comum". A chamada aceita propostas em português, espanhol e inglês nos formatos pesquisa, sessões livres, oficinas e práticas artísticas (até 1.000 palavras). Prazo de submissão: 5 de maio de 2026. Resultado: 5 de junho.
_ O Soberania.Digital organiza seu segundo encontro nacional nos dias 18 e 19 de maio em Brasília, com o tema "Territórios e Movimentos pelo Futuro do Brasil". O encontro reúne movimentos sociais, coletivos, universidades e organizações para afirmar que soberania digital não é pauta técnica — é pauta política, eleitoral e de desenvolvimento nacional. A programação oficial ainda não foi divulgada, mas as inscrições estão abertas na Plantaformas. Acompanhe o grupo do Telegram para atualizações.

Mencionamos em alguma das outras newsletters, mas agora é oficial: nasceu o GEIA, um grupo de pesquisa sediado no Departamento de Comunicação e Artes da ECA/USP que se propõe a "abrir a caixa-preta" da inteligência artificial — entender como funciona, a quem serve e quais outros caminhos são possíveis. Coordenado pelos professores Leonardo Foletto e Júlio Colabardini, o grupo trabalha em dois eixos: processos criativos e experimentação em IA generativa (com foco em como artistas, designers e comunicadores do Sul Global negociam autoria e agência com as máquinas) e comunicação e educação em IA (desenvolvendo metodologias de alfabetização crítica algorítmica para educadores, estudantes e comunidades). O site já está no ar com biblioteca de referências, materiais de disciplinas e blog — e o grupo também realiza encontros periódicos abertos. Uma iniciativa de IA crítica que nasce dentro da universidade pública brasileira com os pés fincados em cultura livre e ciência aberta.
Como funciona o algoritmo das redes sociais? Desenvolvido pelo Centro de Pesquisa em Comunicação e Trabalho da USP (CPCT), com apoio da Fapesp, o jogo educativo Perfilando está disponível gratuitamente para download e foi pensado para educadores que trabalham com jovens a partir do 6º ano. A dinâmica é simples e reveladora: jogadores tentam adivinhar o perfil uns dos outros a partir de likes e dislikes em sugestões de vídeos, simulando o perfilamento que as plataformas realizam continuamente sobre seus usuários. Ao tornar visível a lógica de captura de dados das redes sociais, o jogo transforma em experiência concreta o que costuma permanecer invisível — e, portanto, naturalizado.
O WikiFlix é uma plataforma do ecossistema Wikimedia que organiza e disponibiliza filmes em domínio público de forma gratuita, sem anúncios e com foco na preservação da memória cinematográfica. Além de uma alternativa aos serviços de streaming pagos, o projeto é também um exemplo concreto de cultura livre: obras que pertencem a todos, acessíveis a qualquer pessoa, sem algoritmos de recomendação capturando atenção ou dados.
